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quinta-feira, 28 de abril de 2016

A vida em preto e branco

A luz que me ilumina enche o quarto de um branco assustador. As sombras formam-se gradualmente ao longe, mas não conseguem chegar perto e envolver-me.
Fui ensinado a temer a escuridão ao mesmo tempo em que desenvolvia um pensamento de acolher o que era rejeitado. A escuridão passou a ser um fetiche, uma busca insaciável do ato de apagar a luz.
Desenvolvi uma rejeição natural à iluminação, passei a planejar o momento de pressionar o interruptor; o difícil é parecer não ter motivo.
Gradualmente, os tons de cinza mais escuros prevalecem. Falta coragem de apagar a luz.
O negócio é fechar os olhos: ao me acostumar com o breu total, jogar uma pedra na lâmpada será tão natural quanto respirar.
Na ausência de luz, a parede mais branca é tão negra quanto petróleo.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Inspiração de volta

Acordo e estou dormindo quando acabei de acordar. Parece óbvio, mas para mim não é, ao menos não quando acabei de acordar. Acordei na posição fetal, meio de lado, com os joelhos dobrados e braços igualmente dobrados em direção ao rosto, como um lango lango. Não me para de vir à cabeça que nessa posição poderia prender uma espingarda entre minhas pernas e colocar seu cano embaixo de meu queixo, no pescoço, e puxar o gatilho e estourar minha cabeça. Talvez seria melhor do que acordar. Mas não tenho uma espingarda, portanto, sonho adiado, levanto e vou à luta.
A Cláudia Leite (ou Cláudya Leitte ou Cláwddya Leytte, ou seja a puta que pariu que for) faz uma propaganda no outdoor... sobre leite materno. Ou leitte materno, ou leytte matterno, foda-se. E eu me pergunto: mas quem não gostaria de mamar na Cláudia Leite (ou suas variações)? Se o bebê não quiser, vai no Largo da Carioca e terá milhares de marmanjos virando bebês. Contanto que ela não cante uma canção de ninar axezeira, dando só o peito, tá beleza. Mas e o coitado do Uoshinton Uélinton, que tem que mamar em sua mãe, que não é um exemplo de beleza? A campanha para ele não ser desmamado ninguém faz, né?
Beleza. Chego ao curral. Estou perdido. Não sei o que fazer com esses porcos, que brincam e se jogam na lama o tempo todo, e parecem comigo quando estou arrotando. Sorrio, faço cara de abobado e observo-os brincar. O dono chega com uma espingarda. Pede que eu mate um porco. Eu peço para ele esperar acabar a brincadeira. O que ouço é um: "Ara, muleque! Deixa que eu faço então!" E ele vem para cima de mim, tentar tomar a espingarda que há pouco me deu. Eu luto e atiro contra a barriga dele. Assisto-o morrer na minha frente. Os porcos param de brincar por causa do tiro. Peço que ignorem o barulho, me desculpo, e peço que continuem. Eles me olham feio. Mato os três porcos que me encaravam. O curral agora mistura lama e sangue.
Pulo na lama misturada com sangue, feito um porco, e depois fico deitado, com a espingarda em mãos. Deito na posição fetal. Coloco a espingarda entre as pernas e encosto o cano em meu queixo.
A lama agora parece uma mistura de lama, sangue e cérebro.
Uma pena eu não poder mais desfrutar dessa paisagem.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Caostrutivo

Morri três vezes. E todas em um intervalo menor que um dia. Não sei se as pessoas levarão isso como uma metáfora, mas na verdade é uma maldição que me assola; certamente, tal maldição (para mim) seria vista com bons olhos por outras pessoas, mas nasci para mandar a opinião pública e consenso pro caralho.
Caminhando, ontem, fui atingido por algo que me deixou queimando por dentro: entrou em minha cabeça e só pude sentir um molhado no rosto, e com um certo sorriso de satisfação, o queixo batendo no chão foi minha última sensação de vida. Ou tinha sido... porque logo depois acordo, no mesmo local, limpo, com carteira e mp4 (o que prova que não fiquei desacordado, ou teriam me levado tudo). Simplesmente morri e não morri. Não consigo morrer.
Poucas horas antes desse acidente no qual senti inclusive o sangue, me encontrava sentado, quando o peito sentiu fisgadas, como se fossem choques, cada vez que respirava. Resolvi respirar mais forte, para ver se conseguia acabar logo com essa merda (tivesse o fim que fosse). Enquanto enchia meus pulmões de ar, lutava contra a dor no peito, afinal, se tivesse que morrer, que fosse sem dor. Pois morri novamente, quando senti o coração dando um pulo e uma engasgada. Sentado estava, sentado fiquei. Não vi nenhuma luz branca, nenhum túnel, nem Deus, nem anjo, nem Diabo, nem porra nenhuma. Nem mesmo a minha vida passou pela minha cabeça; a única cena que passou repetidamente foi da trajetória da bolinha de papel alumínio, o carro em movimento, meu braço e a cabeça da pessoa que acertei. Revi essa cena diversas vezes enquanto agonizava; troquei todos meus momentos por um momento de sacanagem com uma pessoa desconhecida (e não estou falando de sacanagem gostosa, e sim de traquinagem).
Tenho sérios problemas mentais. Morri três vezes, mas só escrevo duas. E não fico satisfeito com o que escrevi. Mas tudo indica que se eu quiser vencer essa maldição de vencer a morte, terei eu mesmo que fazê-la. Nada demais, afinal, sempre estiveram em meus planos.

Só preciso postar isso. A polícia chegará pouco depois. Aliás, infelizmente eles encostarão em mim. Nem morto tem paz.

E você fará o mesmo, quando perceber que o mundo não te mata. Ele só te incita ao suicídio.

O carro vira em alta velocidade... está longe das pessoas, duas pistas, para ser mais exato... estendo o braço e jogo a bolinha de papel... o carro em movimento, as pessoas em movimento.... vejo a trajetória da bolinha... vai pegar em cheio...


(OBS: preciso voltar a pegar ritmo disso aqui. Post só para atualizar mesmo.)