Tô chorando vendo Titanic, na hora que o Jack morre.
Choro de inveja: uma hipotermia agora cairia muito bem...
JogodavelhaRio50graus
domingo, 3 de janeiro de 2016
Rio 50 graus
Bucetinhas e caralhos
calor filadaputa,
crônica,
derretendo,
sol,
solpacaralho,
verão carioca
domingo, 27 de dezembro de 2015
A cruz
Giovanna, na passagem do dia 24 pra 25 de dezembro, natal, arrumou uma mesa e falou para rezarem pra papai do
céu. Essas coisas não me comovem, ela nem me chamou e fiquei de boas no
sofá. Depois disso, ela pegou água e começou a fazer uma "cruz de Jesus" nas pessoas:
molhava a mão e fazia uma cruz na testa das pessoas com o dedo molhado, e falava "cruz de Jesus". Chegou na
sala, fez "cruz de Jesus" na Joyce. Chegou em mim: "titio, vem aqui";
olhei pra ela, ela já veio com a mão molhada pra cima de mim, aí pra não
criar climão, já que meu avô tava do meu lado, abaixei a cabeça pra
chegar perto dela. Ela fez a cruz na minha cabeça: "cruz do Mal pra
você, titio!"
Eu, obviamente, ri pra caralho, ela continuou, fez uma "cruz do bem" no meu avô, virou pra mim e falou: "Ué, você não gosta de Jesus, cruz do mal pra você, ué..."
O maneiro é que o "do Mal" é sem preconceito, aceitando o fato de eu não gostar.
Minha sobrinha é foda!
Eu, obviamente, ri pra caralho, ela continuou, fez uma "cruz do bem" no meu avô, virou pra mim e falou: "Ué, você não gosta de Jesus, cruz do mal pra você, ué..."
O maneiro é que o "do Mal" é sem preconceito, aceitando o fato de eu não gostar.
Minha sobrinha é foda!
Bucetinhas e caralhos
crônica,
cruz de Jesus,
cruz do mal,
Giovanna
8:49
Foi apenas um minuto. Mas, sem querer ser clichê, sendo: pareceu uma
eternidade. Rio de Janeiro, zona norte, subúrbio, braz de pina, um
quartinho onde o sol faz questão de bater todas as manhãs, sem folga, na
parede, tornando-a uma frigideira em potencial. Eram 8:49, horário para
qualquer ser normal estar dormindo, e era o que fazia nosso amigo F.,
mesmo com um calor escroto, combatido apenas com um ventilador. Ao menos
o mantinha vivo. Mas, como eu disse, eram 8:49, e ninguém
saberia que eram 8:49 se todos continuassem dormindo; viraria 8:50,
9:00, e foda-se, vários minutos que nunca tive consciência da existência
em minha vida; mas esse minuto, não; esse marcou.
Às 8:49 faltou luz. O ventilador parou. A respiração veio com dificuldade, parecia estar em uma fornalha. Nosso amigo F. pegou instintivamente o celular (porque, né, vai que tem o aplicativo daquela porra começar a girar e virar um ventilador) e foi aí que ele viu a maldita hora: 8:49. Praguejou e percebeu que havia faltado luz. Tentou virar pra cima, pra ver se deixava de derreter na cama; não adiantava. E então, uns vinte segundos após o ventilador parar, deu um estalo que trouxe a expressão do desespero para aquele recém-acordado (e então totalmente lerdo devido ao sono e ao calor) F.. Apenas agora ele percebia o horror daquela falta de luz: o ventilador parar apenas o faria levantar mais cedo, ficar de mau humor, mas mau humor era seu sobrenome mesmo, então nada que ficar na sombra tentando achar onde o vento bate mais não resolvesse. Mas tinha algo que parecia perdido, e o desespero aumentava, o que parecia aumentar-lhe o calor também; seu corpo parecia que iria explodir.
Então, lembrou-se da solução - ele estava lerdo, tinha acabado de acordar, relevem... - e a decisão estava em suas mãos: usar ou não usar o trunfo? Pensou um pouco e viu: dessa vez era necessário. Já usara tantas vezes por motivos menos nobres, porque regularia agora?
Pegou o celular. Ele já marcava 8:50. Foi em Ajustes; Celular. Olhou para o botão que conectaria o 3G; aguardou por um milagre. Fechou os olhos e direcionou o dedo para conectar. Ia pagar os R$ 0,99 que a Claro cobrava por aquela internet de merda. Decidiu-se, é emergência. E... Vruuuuuu... O ventilador voltou! A luz voltou! O dedo quase conectando voltou! O wi-fi voltou!!!
Pronto, agora ele poderia reclamar no facebook da falta de luz, do calor, do plano da Light de matar os cariocas, em complô com a CEDAE, fazendo faltar água num dia, luz no outro. Enfim. Foda-se o calor. O negócio é poder reclamar no Facebook!!
Às 8:49 faltou luz. O ventilador parou. A respiração veio com dificuldade, parecia estar em uma fornalha. Nosso amigo F. pegou instintivamente o celular (porque, né, vai que tem o aplicativo daquela porra começar a girar e virar um ventilador) e foi aí que ele viu a maldita hora: 8:49. Praguejou e percebeu que havia faltado luz. Tentou virar pra cima, pra ver se deixava de derreter na cama; não adiantava. E então, uns vinte segundos após o ventilador parar, deu um estalo que trouxe a expressão do desespero para aquele recém-acordado (e então totalmente lerdo devido ao sono e ao calor) F.. Apenas agora ele percebia o horror daquela falta de luz: o ventilador parar apenas o faria levantar mais cedo, ficar de mau humor, mas mau humor era seu sobrenome mesmo, então nada que ficar na sombra tentando achar onde o vento bate mais não resolvesse. Mas tinha algo que parecia perdido, e o desespero aumentava, o que parecia aumentar-lhe o calor também; seu corpo parecia que iria explodir.
Então, lembrou-se da solução - ele estava lerdo, tinha acabado de acordar, relevem... - e a decisão estava em suas mãos: usar ou não usar o trunfo? Pensou um pouco e viu: dessa vez era necessário. Já usara tantas vezes por motivos menos nobres, porque regularia agora?
Pegou o celular. Ele já marcava 8:50. Foi em Ajustes; Celular. Olhou para o botão que conectaria o 3G; aguardou por um milagre. Fechou os olhos e direcionou o dedo para conectar. Ia pagar os R$ 0,99 que a Claro cobrava por aquela internet de merda. Decidiu-se, é emergência. E... Vruuuuuu... O ventilador voltou! A luz voltou! O dedo quase conectando voltou! O wi-fi voltou!!!
Pronto, agora ele poderia reclamar no facebook da falta de luz, do calor, do plano da Light de matar os cariocas, em complô com a CEDAE, fazendo faltar água num dia, luz no outro. Enfim. Foda-se o calor. O negócio é poder reclamar no Facebook!!
domingo, 20 de dezembro de 2015
Calor
Calor de assar rola na buceta.
Calor de suar o saco.
Calor de suar embaixo do peito.
Calor de deixar cueca com cheiro de cu.
Calor de melar peido.
Simplesmente, calor.
Calor de suar o saco.
Calor de suar embaixo do peito.
Calor de deixar cueca com cheiro de cu.
Calor de melar peido.
Simplesmente, calor.
Bucetinhas e caralhos
calor,
Poesia,
verão no RJ
sexta-feira, 11 de dezembro de 2015
Meu saco não tem dentes...
Eu sou gordinho. Biotipo mesmo, nasci pra ser assim. Mentira, é porque além de gordo, sou preguiçoso. Não sei se sou preguiçoso porque sou gordinho, ou gordinho porque sou preguiçoso. Tipo Tostines. Enfim, o negócio é que se tem que fazer esforço físico para manter um corpitcho maneiro, valeu: prefiro suar fritando bacon num calor de 40º do Rio de Janeiro, bebendo um refrigerante para amenizar o calor. Tudo errado, nada saudável, vou morrer cedo por conta disso: eu sei! Mas foi a minha escolha, me maltratar e matar outros animais para me alimentar.
E ao mesmo tempo, DETESTO comprar roupas. Não o fato de pagar por roupas, o que também, confesso, me incomoda. Sou gordinho e pão-duro. Minhas roupas, se possível, uso depois de 20 anos; de preferência, roupas que ganhei. Mas estou falando sobretudo de camisas. Camisa é de boa. Compra uma G pra mim, que foda-se, eu uso. Quando eu era mais magro, as pessoas compravam P, M ou G, tudo cabia. Hoje em dia, as pessoas percebem que o P não rola, o M deixa aquele peitinho de pombo (mas se me derem, foda-se, uso), e o G fica maneiro. Camisa é mole. O foda é calça!
Ah, voltando ao assunto, DETESTO comprar roupas. E o pior é que existe um ritual nessa merda de comprar roupas, que é o escolher e o experimentar. BUCETA. Me manda fazer flexões no chão, no sol, mas não me manda provar roupas, cara. Muito menos calças! Tem muita coisa odiosa por trás de comprar calças hoje em dia. Inventaram mil tipos de calças: skinny, thin, e sei lá, outras que nem sei, e acho que sumiram com as normais. Eu só queria calças normais, que eu olhasse, soubesse meu número, e no máximo levasse pra experimentar o meu número e o número acima (porque, né, vai que esse bacon com refrigerante me engordou...), e pronto. Saía feliz e comprava a merda da calça. Feliz é o caralho, que eu não fico feliz comprando roupa. Mas porra, agora eu tenho que escolher o tipo, ver qual se aproxima mais da normal, uma aporrinhação a mais. Depois, entra no provador; tira o tênis; tira a roupa que tá; bota a calça; se ficar sobrando, põe o tênis pra ver como fica; tira o tênis se teve que colocar; tira a calça que experimentou; bota a outra calça pra experimentar se aquela não ficou legal; f(x) aquela porra toda aí se repete até você experimentar a última calça; tira a última calçå experimentada; bota a sua roupa; põe o tênis; sai puto da vida do provador; esgana o primeiro vendedor que te oferecer cartão da loja; paga a merda da calça; se mata.
Enfim, o foda é que eu queria ficar com as calças por 20 anos, como faço com as camisas, mas... lembrem-se do meu biotipo. Eu acho que as minhas pernas roçam demais entre si, não sei qual a safadeza delas, se buscam o orgasmo ou se fazem pra procriar, mas enfim... sempre embaixo do meu saco as calças rasgam. Parece que tenho dentes no saco.
Não tenho dentes no saco.
São minhas pernas gordinhas...
E ao mesmo tempo, DETESTO comprar roupas. Não o fato de pagar por roupas, o que também, confesso, me incomoda. Sou gordinho e pão-duro. Minhas roupas, se possível, uso depois de 20 anos; de preferência, roupas que ganhei. Mas estou falando sobretudo de camisas. Camisa é de boa. Compra uma G pra mim, que foda-se, eu uso. Quando eu era mais magro, as pessoas compravam P, M ou G, tudo cabia. Hoje em dia, as pessoas percebem que o P não rola, o M deixa aquele peitinho de pombo (mas se me derem, foda-se, uso), e o G fica maneiro. Camisa é mole. O foda é calça!
Ah, voltando ao assunto, DETESTO comprar roupas. E o pior é que existe um ritual nessa merda de comprar roupas, que é o escolher e o experimentar. BUCETA. Me manda fazer flexões no chão, no sol, mas não me manda provar roupas, cara. Muito menos calças! Tem muita coisa odiosa por trás de comprar calças hoje em dia. Inventaram mil tipos de calças: skinny, thin, e sei lá, outras que nem sei, e acho que sumiram com as normais. Eu só queria calças normais, que eu olhasse, soubesse meu número, e no máximo levasse pra experimentar o meu número e o número acima (porque, né, vai que esse bacon com refrigerante me engordou...), e pronto. Saía feliz e comprava a merda da calça. Feliz é o caralho, que eu não fico feliz comprando roupa. Mas porra, agora eu tenho que escolher o tipo, ver qual se aproxima mais da normal, uma aporrinhação a mais. Depois, entra no provador; tira o tênis; tira a roupa que tá; bota a calça; se ficar sobrando, põe o tênis pra ver como fica; tira o tênis se teve que colocar; tira a calça que experimentou; bota a outra calça pra experimentar se aquela não ficou legal; f(x) aquela porra toda aí se repete até você experimentar a última calça; tira a última calçå experimentada; bota a sua roupa; põe o tênis; sai puto da vida do provador; esgana o primeiro vendedor que te oferecer cartão da loja; paga a merda da calça; se mata.
Enfim, o foda é que eu queria ficar com as calças por 20 anos, como faço com as camisas, mas... lembrem-se do meu biotipo. Eu acho que as minhas pernas roçam demais entre si, não sei qual a safadeza delas, se buscam o orgasmo ou se fazem pra procriar, mas enfim... sempre embaixo do meu saco as calças rasgam. Parece que tenho dentes no saco.
Não tenho dentes no saco.
São minhas pernas gordinhas...
terça-feira, 8 de dezembro de 2015
Sobre criança, consciência e mendigo
Giovanna passeando hoje comigo pelo Centro, viu um mendigo dormindo na rua, todo coberto.
- Ali, titio, essa pessoa mora na rua. Ela não tem casa!! E todo mundo passa, ninguém pega ela pra levar pra casa... Como é que pode, morar na rua, na rua, titio!
Eu, com a carcaça um pouco dura de ser uma dessas pessoas que não levam as que dormem na rua para casa, concordei, por ser um assunto que me dói...
- É, Giovanna... isso devia ser proibido, né, a pessoa não ter uma casa pra morar...
- Tadinhas delas, titio! Elas não tem casa pra morar! Imagina se fosse eu, morando NA RUA, sem nada pra comer, passando fome... Tadinhas delas, titio...
E eu percebendo que ela tem a mentalidade muito melhor do que muita gente adulta, me calei, simplesmente, perguntando qual exemplo eu poderia dar pra essa garota pra ela não perder esse senso de humanidade. Ela se coloca na pele das pessoas, ela tem a capacidade de saber que é errado porque ela não deseja isso pra ela, ela não vê como monstros por estarem com roupas maltrapilhas, o que é um ótimo começo. Mas ela cortou meus pensamentos, quase com uma resposta:
- Titio, um dia quero ajudar essas pessoas, vamos?
Eu chorei (veio a lágrima, não pisquei o olho pra não escorrer, e deixei o vento secar... mas eu sei que chorei...), e me sinto inútil. Fora comprar salgados para muleques que pedem quando estou em lanchonetes, ou preparar marmitas quando pedem em casa, nunca soube direito como ajudar as pessoas, e hoje simplesmente fui forçado a ver o como estou com essa camada fria de quem vê vários mendigos no centro e acabou se acostumando. E entro em parafuso, sem mensagem bonita, eu não ajudei ninguém hoje na frente dela. Preciso fazer algo para que essa vontade dela nunca morra. Pessoas morando na rua não deveria ser algo normal. Subvida não deveria ser algo normal. Eu vou dormir com esse peso hoje...
- Ali, titio, essa pessoa mora na rua. Ela não tem casa!! E todo mundo passa, ninguém pega ela pra levar pra casa... Como é que pode, morar na rua, na rua, titio!
Eu, com a carcaça um pouco dura de ser uma dessas pessoas que não levam as que dormem na rua para casa, concordei, por ser um assunto que me dói...
- É, Giovanna... isso devia ser proibido, né, a pessoa não ter uma casa pra morar...
- Tadinhas delas, titio! Elas não tem casa pra morar! Imagina se fosse eu, morando NA RUA, sem nada pra comer, passando fome... Tadinhas delas, titio...
E eu percebendo que ela tem a mentalidade muito melhor do que muita gente adulta, me calei, simplesmente, perguntando qual exemplo eu poderia dar pra essa garota pra ela não perder esse senso de humanidade. Ela se coloca na pele das pessoas, ela tem a capacidade de saber que é errado porque ela não deseja isso pra ela, ela não vê como monstros por estarem com roupas maltrapilhas, o que é um ótimo começo. Mas ela cortou meus pensamentos, quase com uma resposta:
- Titio, um dia quero ajudar essas pessoas, vamos?
Eu chorei (veio a lágrima, não pisquei o olho pra não escorrer, e deixei o vento secar... mas eu sei que chorei...), e me sinto inútil. Fora comprar salgados para muleques que pedem quando estou em lanchonetes, ou preparar marmitas quando pedem em casa, nunca soube direito como ajudar as pessoas, e hoje simplesmente fui forçado a ver o como estou com essa camada fria de quem vê vários mendigos no centro e acabou se acostumando. E entro em parafuso, sem mensagem bonita, eu não ajudei ninguém hoje na frente dela. Preciso fazer algo para que essa vontade dela nunca morra. Pessoas morando na rua não deveria ser algo normal. Subvida não deveria ser algo normal. Eu vou dormir com esse peso hoje...
Bucetinhas e caralhos
consciência,
Giovanna,
humanidade,
mendigo
sábado, 5 de dezembro de 2015
Ceia de Natal
Noite
de 24 de dezembro. Mesa farta. Jorge conversa com Noeli, sua sogra.
Guilherme, filho de Jorge e neto de Noeli, brinca com Renato, seu
primo, e conseqüentemente, sobrinho de Jorge e neto de Noeli. Os
primos param perto da mesa e roubam pedaços de tender fatiado,
colocando rapidamente na boca, para ninguém ver. Renato, o mais
novo, cospe um belo pedaço mastigado no chão, e começa a sentir
ânsia de vômito, o que chama a atenção dos presentes. Jorge
interrompe sua conversa para dar a bronca:
-
É, seu merdinha, quis roubar, agora come!! Tá vendo, olha a criação
que o babaca do Pedro dá pro filho dele...
Dona
Noêmia, mãe de Jorge e de Pedro, defende:
-
Você já olhou o Guilherme? Tá com a boca cheia... problema de
criação também?
Jorge
vira as costas para a mãe e vai pegar mais uma cerveja. Elisa, mãe
de Renato, finge que não ouve a provocação do cunhado e vai limpar
as mãos do filho com um guardanapo.
*
Beto
revira os poucos sacos de lixo que encontra nas ruas, vazias pela
festa e pela chuva rala que caía. Prometeu à família que levaria
comida para casa. Graça, sua esposa, aguardava com Letícia, a filha
do casal, de 4 anos, famintas, quase dois dias sem comer uma refeição
digna (que ao menos viesse em um recipiente).
Homem
correto e tímido, Beto não tinha a desenvoltura para pedir comida
nas casas, mesmo sabendo que estranhamente, nessa época do ano, as
pessoas tendem a ser mais benevolentes. Acredita que o tal espírito
natalino realmente pudesse o ajudar, mas não gostava de ser o
“pedinte”; preferia procurar comida e contar com a sorte de
alguém o ver nessas condições e oferecer algo.
Graça
e Letícia tentam aquecer-se cobrindo-se com trapos de pano dentro de
casa, um barraco simplório, que ao menos lhes servia para proteger
da chuva.
A
sorte não estava ao lado de Beto.
*
Pedro
está quase gozando, enquanto Angélica cavalga em cima dele.
-
É esse peru de natal que você quer, né? Eu fico feliz de comer
galinha hoje!
Ela
diminui os movimentos e abaixa para beijá-lo. Com um sorriso de
canto de boca Pedro cola a boca no pescoço de Angélica, que por um
segundo parece gostar, mas em seguida dá um tapa no rosto dele e
levanta o torso, aumentando o nível das sentadas.
-
Ô filho da puta, quer me marcar hoje, tá maluco?
Pedro
ri, com as mãos firmes nas ancas de Angélica.
-
Tá na hora de cair de boca no espumante...
Pedro
tira o corpo de Angélica de cima do seu e se levanta. Angélica
parece incomodada e caminha para longe dele:
-
Que broxante, goza na mão, goza no chão, mas eu que não vou
engolir porra de quem fica fazendo essas piadas de Ary Toledo.
Angélica
sai correndo e se tranca no banheiro, virando apenas para ver a cara
de desespero de Pedro, com o pau na mão.
*
Guilherme
e Renato estão sentados na sala, de castigo. O avô Fausto assiste
ao jornal na TV. As crianças tentam roubar o controle remoto do avô,
que reclama:
-
Calma, jovem. Depois do jornal eu dou esta merda pra vocês, só não
quero que me encham o saco enquanto eu estiver... aí, já tá
acabando. Tá aqui, ó, pega... Filho, que horas que a gente vai
comer?
-
Só estamos esperando o Pedro e a Angélica, pai. A Angélica ia
passar na casa da prima antes, e o Pedro, só Deus sabe... tem que
ver se não foi preso por aí... – Jorge respondeu, já pegando o
celular para ligar para Angélica.
Dona
Noêmia rebateu:
-
Mas só fala merda esse garoto. Jorge, para de pinima com seu
irmão...
Jorge
não conseguiu falar com Angélica, pois o celular estava desligado
ou fora da área...
-
Mãe, vou dar um pulo ali para pegar a Angélica.
Jorge
saiu após fazer o anúncio.
*
Beto
estava cansado e com fome. Fome daquelas que você não sabe o que é,
já que para dar para Graça e Letícia, acabou comendo quase nada
nos dois últimos dias. Já estava ficando um pouco tonto, e resolveu
tocar a campainha de uma casa, aceitando a derrota.
Tocou a campainha.
Pelo portão vazado, dava para ver luzes na casa, dava para ouvir o
som. Percebeu também quando, ao tocar pela segunda vez a campainha,
as pessoas pareceram falar mais baixo, algumas luzes se apagaram, uma
fresta da janela se abriu e cabeças apareceram empilhadas, uma em
cima da outra, parecendo querer olhar quem tocava a campainha;
percebeu quando mais luzes se apagaram, e até o som foi desligado
enquanto ele ainda estava parado em frente ao portão. Percebeu que
não era bem-vindo ali, que não queriam ninguém pedindo algo.
Decidiu voltar aos sacos de lixo.
*
Pedro
está dirigindo e olha descaradamente para as pernas de Angélica,
que está usando um vestido curtíssimo que do modo como está
sentada, deixa aparecer a calcinha de renda vermelha (e os pelos
pubianos ruivos que escapam pela renda).
-Para
de me olhar com essa cara de tarado...
Pedro
sorri e bota a mão direita no meio das pernas de Angélica,
pressionando com o dedo médio o centro da calcinha. Angélica faz
uma cara de prazer, e Pedro se divide entre dirigir e movimentar o
dedo. Angélica abre um pouco mais as pernas e Pedro com um movimento
digital enrola a calcinha no dedo médio e tenta puxar a calcinha de
Angélica.
-
Para, Pedro, olha a palhaçada... A gente já está chegando.
-
Hum, é só chegar na ceia de Natal que você vira santinha, é?
Pedro
faz mais força para puxar a calcinha, ao mesmo tempo que vai parando
o carro em frente ao portão da casa de sua mãe. Angélica fecha as
pernas e segura o braço direito de Pedro com uma das mãos. Com a
outra, ela abre a porta.
-
Parou a brincadeira. Já fez o que queria, não é?
Pedro
sorri, olhando fixamente para o meio das pernas de Angélica, onde
ainda trava uma luta para tirar a calcinha dela. Ouve um som de
Angélica batendo a cabeça, provavelmente na saída do carro, o que
a faz abrir subitamente as pernas e desmontar como que desmaiada para
fora do carro, e no que tenta acompanhar a queda da amante, percebe
um par de pernas do lado de fora do carro.
-
Que isso, a brincadeira está só começando, seu filho da puta!
E
com um cabo de enxada, Jorge acerta o meio da testa do irmão, que
desmaia no carro.
*
Beto
desistiu de pedir, desistiu de catar lixo (provavelmente, só amanhã
as sobras das ceias estarão à disposição dele e dos urubus), e
estava voltando para casa. No entanto, o espírito natalino tem
dessas coisas, ao passar por uma rua escura, enxergou um ponto
iluminado, onde um saco preto refletia uma luz acobreada, uma mistura
de cores que ficou realmente lindo, e o vento que batia no saco,
fazia-o tremular, e a luz movia-se, em um movimento belo que enchia
os olhos de Beto de emoção.
Ele
decidiu que esse seria o último saco a ser visto. Sim, tinha
esperança, talvez ele pudesse levar algo para comerem em casa, mesmo
que fosse pouco. Aproximou-se do saco de lixo, abriu-o lentamente, e
percebeu que era pesado. Ao abrir por completo e trazer o interior do
saco à luz alaranjada, percebeu que havia fartura: carne, diversos
pedaços! Beto chorou. Cheirou para ver se estava muito podre, embora
soubesse que mesmo podre, serviria para ao menos matar a fome de
Graça e Letícia, e dele também. Pois nem podre estava, podia
sentir o cheiro: fresquinha! As lágrimas escorriam por seu rosto,
ele não conseguia conter-se: certamente um presente do céu!
Agradecia mentalmente, não sabia se ao espírito de natal, ao
açougueiro que havia colocado aquilo ali, ou à entidade a quem era
enviado o despacho: agradecia a todos! Fechou a sacola e partiu para
casa, agora revigorado, feliz, forte. Nada mais o incomodava.
Beto
conseguiu a ceia de Natal da família!
*
Dona
Noêmia, Fausto, Noeli, Guilherme, Renato e Elisa continuam esperando
Pedro, o marido de Elisa, e Angélica, a esposa de Jorge. E Jorge
está lavando uma enxada, sem pressa alguma.
Bucetinhas e caralhos
amor,
ceia de natal,
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jingle bells,
João Kleber,
nascimento de Jesus,
noite feliz
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