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sábado, 17 de fevereiro de 2018

Chatsex_023


[Firestarter] oi, quer tc?
Era adolescente nos anos 2000. Internet discada, família pobre.
Sempre a mesma rotina de merda. De dia, vivia enfurnado em casa, solitário; se saía para comprar algo, evitava contato humano. Lia, escrevia, comia, olhava para a parede. Comia, batia uma punheta, lia, olhava para a parede. O relógio: onze e meia. Ligava o computador. Paciência. Perdia. Paciência. Ganhava. Campo minado. Não sabia jogar. Pasta com fotos e montagens pornográficas de mulheres famosas. Onze e cinquenta e nove. Começava a tentar conectar.
Meia-noite. Buscava avidamente contato humano digital. Não de dedo; digital, zeros e uns, essas merdas. “vc quer tc?” Previsível, baixo, sedento. Essa foi minha vida durante um tempo. No mIRC, no ICQ, e até no chat da AOL. No chat de sexo da AOL. E foi na Chatsex_023 que eu me fodi, de um jeito que não tem nada a ver com sexo.
[Firestarter] alguém do RJ?
Paty_gostoXXXinha entrou na sala
[Firestarter] e ae @Paty_gostoXXXinha
Incrível como é fácil iludir homens na internet. Bote qualquer nick que remeta a sexo e certamente vão chover conversas. Se hoje em dia homem velho cai nessas, imagine um adolescente na virada do século. Internet discada, falta de conhecimento, hormônios à flor da pele, capacidade de raciocinar prejudicada pela janela de vídeo pornô dividindo a tela com o chat. Caí fácil.
[Paty_gostoXXXinha] Oiiii @Firestarter ! pvt me!
Pvt me era chamar pra private, conversar sozinhos. Era o objetivo.
Pouparei vocês dos detalhes da conversa, mas era muito baixo. Imagina um jovem punheteiro que está conversando com alguém que se diz garota e gostosa, influenciado pelo vídeo do CumFiesta.com na mesma tela quadrada de computador. Esse era o nível de pensamento, que gerava a conversa vergonhosa. Eu escrevia as mais variadas palavras (dia bonito, praia, bolo, chuva, árvore), mas semanticamente falando, tudo poderia ser traduzido por “quero fuder sua buceta”.
Uma pausa para explicar: sempre soube escrever “foder” e “boceta”, mas certas palavras parecem que são mais bonitas quando lidas na forma oral (com todos os trocadilhos que possam imaginar sobre preferir oral de buceta). Escrever (e ler) “quero foder sua boceta” soa como uma tradução mal feita, aquelas dublagens no estilo Fucker and Sucker. Um pensamento com tesão gera a oralidade essencial.
Volto ao pvt, onde Paty e eu trocamos frases quentes. Investi pesado. Talvez porque o vídeo que estava vendo estava me empolgando; talvez pelo XXX do nick dela remeter a pornô; talvez pela junção dos fatos. Não sei responder. Só sei que enviei fotos minhas e recebi fotos dela.
As fotos não eram digitais ainda. Eu escaneava algumas fotos em que eu saía mais bonitinho.
Colocava a foto no scanner. Selecionava 300 dpi (porque não sabia ainda que para internet apenas 92 estava de bom tamanho). Cortava as fotos no Corel e exportava o jpeg. Não tinha Photoshop e eventualmente acabava tendo que fazer alguma coisa no PaintBrush. Dava trabalho, mas eu acreditava que era preciso ter uma foto sua para um encontro marcado virtualmente. Não era.
As fotos que recebi dela eram estranhas. Muito gostosa, sim, mas o rosto e o corpo pareciam brigar um pouco... como as fotos da Sandy e da Britney Spears peladas que eu tinha no computador. Pelo visto, Paty não se dava ao trabalho de escanear suas fotos e cortar em programas não tão adequados.
Mas na época... Falta de conhecimento; hormônios; CumFiesta.com. Passei a entrar sempre na Chatsex_023 da AOL, esperando a Paty entrar. Era ela aparecer e eu começava a siririca no teclado, deslizando meus dedos avidamente para falar de prazer. Meu pau ficava duro. Na minha opinião, eu era um grande escritor. Meu pau ficava tão duro ao imaginar e escrever as putarias quanto ao ver vídeos pornôs. Um escritor sólido feito uma rocha. Gosto de frisar sobre a insipiência, hormônios, pornografia gratuita. Modéstia a parte, tenho certeza que o alter ego da Paty ficava de pau duro também.
Ah, sim. A Paty não existia. Era um homem. Adiantei a história e cortei uns parágrafos. Sorte a de vocês. Enfim, pior do que essa cuspida de mudança na história foi o jeito como descobri isso. Marquei um encontro em um shopping.
Eu detestava shoppings. Detesto. Hoje, talvez, pelo trauma do ocorrido. Na época porque achava tedioso ficar andando em um lugar onde tinha tudo para comprar: livros, CDs, DVDs, comida; mas eu não tinha nenhum dinheiro. Mas buceta, de graça, eu queria. Marquei na porra do shopping.
Vocês devem imaginar que o rostinho lindo da foto que eu tinha como Paty, com aquele corpo escultural, nunca foi visto andando naquele lugar. Acho até bom isso. A cabeça era branca demais se comparada com o corpo bronzeado, não era algo tão harmonioso. Mas era um rosto bonito em um corpo feminino nu. Sério, parece ridículo (e é, na verdade), mas foi muito fácil me enganar.
Eu estava comprando uma esfiha no Habib's, pois era o que eu podia comprar com R$ 0,29, quando um careca chegou atrás de mim e me deu um esbarrão. Continuei aguardando minha esfiha, ignorando o transeunte distraído. Nem sabia que ele era careca. Ele me cutucou.
 - Tô na fila.
- Vem comigo, porra.
Eu não entendi, nem fiz questão. Já tinha pago a esfiha, eu queria comer.
- Eu mandei vir comigo, caralho!
Um cara que eu não conheço me dando ordens? Olhei pra ele. Notei nesse momento que ele era careca. Olhei para meu cupom fiscal. Olhei pro atendente estranhamente feliz que me dava boa tarde. Entreguei o cupom a ele.
- Uma de queijo.
Olhei para o careca, que suava, olhava para o relógio, olhava para os lados, olhava para mim e voltava a olhar para o relógio. Estranho. Peguei minha esfiha de queijo com quatro guardanapos. Sempre vazava um líquido daquela merda que cagava minhas roupas. Peguei mais dois guardanapos, por segurança. Meu braço quase foi arrancado pelo puxão que o careca me deu. A esfiha sambou na minha mão, e antes de perguntar o porquê de ele estar me puxando, comi metade daquela rodela. Meu dedo anelar e o mindinho já estavam engordurados.
Deixei o careca me conduzir porque estava com a boca cheia. Chegando quase à saída do shopping, já engolida a esfiha, dei um tranco pra trás com o braço.
- Quem é você, cara? Tá me levando pra onde?
O homem só deslocou uma parte do seu terno, mostrando uma pistola. Falou, sem pronunciar som algum, mas abrindo exageradamente a boca e pausadamente, como fazemos quando queremos fofocar sem som, apenas uma palavra: Paty. E assim me convenceu a segui-lo.
Na hora eu só pensava em uma coisa: essa esfiha já foi mais recheada. Realmente, que miséria de queijo estavam colocando agora. Mas lutava internamente para explicar a mim mesmo o que estava acontecendo. A Paty tinha marido e ele descobriu que marcamos? O pai dela não era muito entusiasta desses encontros de internet? Tinham mais opções, mas no momento, o fato de ter pago trinta centavos em uma esfiha quase sem recheio estava me ocupando demais, e não consegui desvendar o mistério.
Hoje penso que poderia ter saído correndo, no shopping, e ver a merda que ia dar com um maluco atirando aleatoriamente no meio da praça de alimentação. Mas a minha falta de reação por conta da maldita esfiha me fodeu. Fodeu com “o”, porque não é um fuder, com tesão; prezo muito essa diferença. Mas conformado com a merda que tinha dado, e travado por saber que o cara tinha uma arma, deixei-me levar até um carro, para onde fui empurrado brutalmente e tive a certeza de que não sairia daquele encontro vivo.
No banco de trás do carro fui abraçado (o termo técnico, acredito que seja “levei um mata-leão”, mas nunca fui bom de artes marciais) por um homem forte. Estava tudo muito escuro, então só posso descrever o que senti, porque não via nada. O careca foi na frente, no carona, apontando a arma para mim.
- Olha aí o garanhão que quer fuder a Paty! - o careca gritou.
Todos riram, e por um momento torci para ser uma pegadinha do Gugu, do Sérgio Mallandro, o que fosse. Tentei até lembrar da fisionomia do careca, para me forçar a acreditar que poderia ser o Ivo Holanda disfarçado, e eu ia meter a porrada em todo mundo no carro, sair puto e xingando, e ouviria “que isso, amigo! É pegadinha, olh'ali, oh!”, e avisaria a todos os meus amigos e família que eu passaria no SBT, e ia pedir para alguém gravar na fita, ia rir pra caralho. Mas as risadas dentro do carro duraram pouco, e logo eu tomei um soco no estômago.
- Seu punheteiro, safado! Tu acha que alguma mulher vai querer dar pra você, babaca? - o cara que me enforcava gritou isso no meu ouvido.
Além de estar preso a ele, eu sentia seu hálito de pizza. Filho da puta. Tinha comido melhor do que eu e me deu um soco que quase fez voltar minha mirrada esfiha. O mundo definitivamente não era justo, eu pensava. Para piorar, o careca começou a zombar do que eu escrevia.
- tô louco pra beber yakult direto da fonte! como é que tá a produção de lactobacilos vivos da sua caverninha? hehe”. Temos um Don Juan piadista aqui, vejam vocês. Olha o papo que o cara usa.
Mais risadas. E eu ainda sem saber que Paty não existia, o que me fazia perder tempo pensando em qual seria o relacionamento do careca com ela.
- Tem mais do nosso Bukowsky aqui: “meu pau tá latejando aqui, cansado da minha mão direita. E minha mão esquerda não é opção... ehehhe sacou?”
Mais risadas. Sei que você deve estar agora torcendo pelos caras. Mas tenham empatia: , ignorância, adolescência, internet... Eu confesso que escrevia essas diretonas, mas no meio tinha muita coisa erótica sem ser tão escroto assim. Eu acho. Mas o careca só pegou os piores trechos. Ele devia estar puto porque ficou de pau duro quando eu escrevia de lamber grelo pressionando levemente com a língua, em movimentos circulares e horizontais; deslizar a mão pelas coxas dela até enfiar o dedo na buceta e puxar a baba lá de dentro, pra cair de boca até me lambuzar todo e espalhar com a língua os fluidos até a portinha do cu, essas coisas.
Tá, você pode falar que não é excitante do modo como escrevo, mas agora nem estou empenhado nisso; naquela época era só o que eu fazia, e eu tentava melhorar as inspirações dos vídeos que eu via. Porque a pornografia, ao menos até os anos 2000, era quase 100% pensada para homens: oito minutos de punheta com boquete, oito minutos de foda vaginal, quatro minutos de foda anal e uma gozada na cara / na boca / nos peitos da atriz. Raramente via-se o homem tentando dar prazer para a mulher através de sexo oral ou dedadas estrategicamente localizadas. Era muito mecânico, frio até, apenas voltado ao prazer masculino. Por sorte minha cabeça criava filmes alternativos com as atrizes. Mas como eu disse, o foco nem é esse.
- Você gosta de putaria, né? Vai conhecer os limites com a gente, carinha.
O carro parou. Eu nem estava prestando atenção no trajeto, só pensava na pizza do cara que soltava o bafo no meu nariz, na minha esfiha e no cecê que lutava com o hálito de pizza dele. Tava foda. Abriram a porta e estava em um galpão. Acho que um hangar, pois havia dois aviões de pequeno porte. Algumas jaulas davam um tom sinistro ao ambiente, e forçando a vista percebi que atrás das grades estavam homens e mulheres, todos nus.
- Morrer virgem você não vai... Aliás, virgindade será uma palavra abolida de qualquer parte do seu corpo...
E não é que o careca manjava dumas frases de efeito sobre putaria?
- Aqui você vai trepar com mulheres, às vezes mais de uma ao mesmo tempo...
Enquanto o careca falava e eu ficava animado, ia tentando ver as mulheres nas jaulas, ver quais eram mais gatas. Mas eu não tinha ouvido tudo. Ele continuava a falar.
- mas também trepará com homens, com máquinas, sofrerá e causará algumas mutilações. Tudo isso será gravado e alimentará nosso site SeXXXtremeFuck.com.
Meus olhos abriram-se como os de um lêmuri selvagem. Transar com homens? Mutilação? Minha mente queria parar no “mais de uma ao mesmo tempo”, mas a parte sempre alerta obrigava-me a receber o resto da mensagem.
- Aqui você vai descobrir todo o prazer que você perde por puro molde social; perder a inibição de gozar a bissexualidade; libertar-se do medo do masoquismo e aproveitar as delícias do sadismo. Tudo isso, inteiramente de graça!
SeXXXtremeFuck.com. De graça meu cu, literalmente. Sempre tentei baixar vídeos deles, só dava pra ver teasers de trinta segundos. Só bizarrice. Nunca consegui ver os vídeos inteiros. Kazaa, Soulseek, tentei vários programas. Para ver, só com cartão de crédito, a bagatela de US$ 9,99 por mês. Que merda.
E a cada mulher que eu comia, a cada piroca que me estourava o rabo, cada apertão nas bolas que eu recebia, eu só pensava que não tinha prazer naquilo. Até o sexo com duas mulheres era torturante, porque não era com vontade; a maquiagem, os cortes para mudar os takes, as pausas para broncas na atuação. Tudo falso. As mulheres não queriam trepar comigo, eram obrigadas, e isso me tirava o tesão. E a cada vez que eu brochava, os sacanas me tiravam do que, há uns meses antes, seria o paraíso pra mim.
- Não quer duas mulheres esfregando a buceta em você? Isso não te excita, poetinha (esse era o meu apelido...)? Então corta que eu já sei...
E me colocavam pra ser fodido por um ou dois homens. Eu sentia meu cu tornar-se uma couve-flor, virar do avesso, mas se eu reclamasse ou parasse a cena, cortavam e mudavam o tipo de vídeo, sempre indo numa escala em direção ao que eu menos gostava: me passavam para ser a estrela de um gangbang masoquista, onde eu era esporrado enquanto alguém me cortava com giletes ou socava minha cara.
Óbvio que eu optava por fuder o máximo que podia as mulheres enjauladas comigo. Mas a empatia, cara... Na verdade, acho que era o oposto de empatia, só estou tentando me passar como bonzinho. Realmente, eu fuderia até acabar com aquelas mulheres, com um pouco de raiva. Não raiva das mulheres, mas a raiva que surge do medo; eu não queria era ser colocado no mesmo lugar que elas. Mas a cabeça é uma merda. Quando eu percebia, estava eu pensando que essas mulheres não queriam fuder comigo tanto quanto eu não queria ser fodido pelos caras – percebe a diferença entre fuder e foder? E começava meu esforço para concentrar e seguir fazendo aquelas mulheres sofrer, para que eu não fosse obrigado a botar para jogo aquele meu buraco onde só o dedinho da mamãe havia estado, e só pra passar Hipoglós... Aí pensava na mãe das garotas que também passavam Hipoglós nelas... Não era empatia porra nenhuma, apenas não há meios de segurar uma ereção se o seu cérebro está pensando em bundinha de bebê com pomada. E lá ia eu sofrer.
Até que passei a estragar todas as cenas, gritava que aquilo era um crime. E foram me passando para cenas cada vez mais extremas. Minha última cena não envolvia picas, mas me empurravam na parte mais dianteira da hélice, sem ser as pás, que estavam rodando. Enquanto a parte pontiaguda entrava na bundinha que mamãe passou talquinho, as hélices cortavam minhas pernas fora. E depois disso, gravaram, por diversão, meus braços sendo cortados pela mesma hélice e me liberaram.
Lembro de ter pensado que saí de um jeito muito bom, pois a outra possibilidade seria algum amigo meu doente que tivesse pago pelos vídeos ter me visto em um deles. Daí ele teria que alertar a polícia, minha família, e seria realmente vergonhoso. Mas eu poderia ter meus membros ainda.
Hoje, inventei uma história completamente diferente para estar desse jeito, sem braços ou pernas. Falei que foi sequestro e que resolveram me deixar assim quando descobriram que eu era pobre. No Rio de Janeiro é uma história bem viável. E escrevo essa história em um tablet, onde bato com a cabeça do meu pau em cada tecla, em um esforço absurdo para não errar. Mentira. Uso um canudo em minha boca e vou, tecla a tecla, escrevendo.
Essa minha história é bem maior. Poderia ter muito mais páginas. Mas falta-me paciência para escrever com a boca. Além do mais, falta-me tempo, pois boa parte dele passo pensando: será que o CumFiesta.com era tão cruel com as atrizes quanto o SeXXXtremeFuck.com foi comigo?
Embora meu pau, meu único membro que sobrou, consiga ter ereções normais, não consigo mais entrar em nenhum site pornográfico.
A empatia. Essa maldita empatia.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Efeito Borboleta

I - SHOW COM AS BANDAS NIRVANA, SILVERCHAIR, SYSTEM OF A DOWN, SLIPKNOT, KORN E MUITO MAIS!

Assim dizia o flyer do show de rock, com alguns nomes pequenos entre parênteses, que indicavam tratar-se de bandas cover. Daniela não conhecia muitas bandas, mas achava interessante o visual dos roqueiros. Aos 17 anos, precisava encaixar-se em uma tribo, e sabia que queria ir nesse show.
- Vai ter Nirvana!
Letícia, sua melhor amiga, desconfiou:
- Você nem conhece Nirvana, garota... Mas aposto que o Marcelo vai, né...
Daniela estava experimentando uma saia de renda preta que comprou especialmente para a ocasião: um tecido preto, mole e confortável, revestido por um filó, igualmente preto, esvoaçante, que lhe passava a sensação de ser uma bruxa. Pensava na sensualidade e no poder das feiticeiras, e estava completamente absorta olhando-se no espelho; tanto que nem respondeu ao comentário maldoso da amiga.
- Vou pra esse show poderosa!

II - Rock com vinho vagabundo

Adolescentes bêbados, garotos suados batendo cabeça e covers dignos de pena no palco. Não era tão bacana quanto Daniela imaginava, mas a noite ainda podia ser salva: Marcelo estava lá. Sempre com a mesma camisa do Motörhead, o garoto conversava com amigos, segurando uma lata de cerveja na mão - um símbolo de maturidade, já que aos 19 anos não pega bem ficar só bebendo vinho vagabundo.
Daniela ficou disfarçadamente observando o garoto, esperando o momento certo para se aproximar. Teve que dispensar diversos jovens (meninos e meninas), meio bêbados (ou fingindo-se de), que chegavam querendo ficar com ela. Não podia ser vista pelo crush beijando outra pessoa, ou ficaria tudo mais difícil para concretizar seu plano.
A garota circulava em uma pequena área, chutava o ar, os olhos sempre em Marcelo,; bebericava o copo de vinho, os olhos em Marcelo, e ele sempre no meio dos amigos. Quando poderia aproximar-se e encenar um esbarrão ocasional, dizer "e aí, veio curtir o show?" Já tinha pensado nas falas, em todas as possibilidade de respostas que ele daria, e em suas tréplicas para prendê-lo na conversa. Em sua cabeça rolava um papo hipotético desses quando olhou e percebeu que o garoto estava sozinho. Havia começado a banda que faria cover de Slipknot, essa era sua chance.
Subiu um pouco a saia para o umbigo e dobrou-a para baixo, para ficar um pouco mais curta; virou o copo de vinho que estava inteiro, quente, em sua mão há mais de uma hora; passou as mãos no cabelo, endireitando-o, e saiu em direção a Marcelo.
Chegando perto, desistiu de esbarrar, e preferiu uma abordagem mais comum, embora o álcool marcasse presença no arrastar da fala de Daniela.
- E aí, Marcelo! Você por aqui?
O garoto parou o gole na cerveja e virou-se para ver quem falava com ele.
- Fala... Daniela, né? É... vim mais pra falar com o pessoal, nem gosto dessas bandas aí não.
Os beijos trocados traziam bons sentimentos a Daniela, de olhos fechados e sob o efeito do vinho em pessoas que não costumam beber.
- É... É... eu vim pra... pra ver os shows...
Daniela balançava a cabeça, em negativa; tanto treino para isso?
-... pra ver... você...
Ela riu, corou instantaneamente e olhou para os lados, desviando o olhar de Marcelo. Ele riu e mandou a cerveja pra dentro, inspirando e inflando o peito.
- Dani, eu já tava de saída. Não curto esses new metal e a galera foi toda ver esse cover oficial, com máscaras dos caras e tal...
Os olhos de Marcelo percorriam o corpo de Daniela, e a garota sorria, voltando a encará-lo.
- ... se você não for ficar pra assistir, a gente podia dar uma volta, conversar, sei lá.
- Claro! Nem gosto de Slipknot mesmo... Podemos conversar sim!
Marcelo insinuou o caminho para fora do ambiente, e ao cruzar o portão, colocou o braço sobre os ombros de Daniela.

III - Alívio romântico

A lua cheia brilhava como um refletor. Daniela e Marcelo comiam uma batata frita na praça em frente ao show. Marcelo ofereceu também uma cerveja a Daniela.
- Não, não... já tô meio assim só com o vinho...
- Ah, mas também, beber essas sangrias nesse calor... Olha só como você está suando!
Marcelo passou a mão no rosto de Daniela, limpando uma gota de suor da garota. Depois desceu a mão para a barriga à mostra dela, mas ela rapidamente tirou sua mão de lá.
- Calma... só ia mostrar que a barriga também tá suada...
O rapaz sorriu para Daniela, que desviou o olhar para o chão e franziu um pouco a testa.
- Bom, se você quiser, posso te dar uma carona pra casa. É perto, mas pelo menos dá pra ficar uns cinco minutos no ar condicionado do carro...
- É... acho que já estou cansada por hoje mesmo. E cinco minutos de ar condicionado, acho que vale a pena.
A menina voltou a sorrir, olhou para Marcelo, que estava sorrindo, e levantou, limpando as mãos sujas de gordura da batata na saia.
- Vamos?
Marcelo sorriu e levantou-se, pegando a chave do carro.

IV - Poderia ser uma história de amor, mas um babaca estragou tudo

O carro de Marcelo estava a duas quadras da casa de Daniela, quando ele encostou em um ponto escuro da rua. Com as luzes todas apagadas, Marcelo passou os dedos suavemente no rosto de Daniela, que cruzou os braços e colocou a bolsa em cima das pernas, sem perceber o que fazia.
- ... Marcelo... Minha casa é mais na frente...
- Eu sei, mas você pode fingir que ainda está no show, né?
Os dedos do garoto desciam pelo pescoço de Daniela, que apertou ainda mais a bolsa contra seu colo. O braço direito da menina conseguiu libertar-se do movimento instintivo e barrou o movimento descendente da mão de Marcelo.
- Eu podia, mas a gente pode se ver outro dia...
- Você falou que foi para me ver... Foi de saia... Saiu do show pra conversar comigo... Quis pegar um ar condicionado no meu carro... Qual é... Vai dizer que não tá querendo?
A mão do garoto forçou para continuar o movimento, e era muito mais forte do que o braço de Daniela conseguia resistir. Ela usou então as duas mãos para afastar a mão dele de seu corpo. Franzindo a testa, o garoto recuou.
- Marcelo... Eu tava querendo te conhecer. A gente se conheceu, conversou na praça... eu só quero ir pra casa e depois a gente marca outro dia.
Clanc!
Marcelo ativou as travas e as portas se fecharam. Abriu um sorriso e com as duas mãos em forma de gancho avançou lentamente em direção ao torso de Daniela.
- Ah, não... Me provocou, vai me dar pelo menos uma provinha...

V - O Efeito Borboleta

Teve início uma pequena luta corporal, e um dos lados viu-se surpreendido pela violência de quem não se espera. Um entra e sai frenético começava, fazendo com que gemidos de dor abafados morressem dentro do carro. O ambiente agora começava a aquecer, mesmo com o ar condicionado ligado; uma respiração ofegante ressoava como um pedido de clemência, friamente negado. Seguiram-se várias estocadas; estocadas curtas e rápidas no início, e quanto menos havia resistência, tornavam-se mais profundas e lentas, incluindo penetrações com giros e outras firulas internas. Em poucos segundos, fluidos corporais já melavam as roupas e os corpos dos dois.
As estocadas cessaram.
Daniela empurrou Marcelo de volta para o banco do motorista. Ela procurou o botão para destravar as portas, e apertou. Abriu a porta e, antes de sair, deu uma cuspida no rosto de Marcelo, cujo corpo jazia, tombado com a cabeça no vidro.
Ela limpou o sangue de sua faca borboleta, guardou-a na bolsa e seguiu a pé para casa, assobiando "Girls just wanna have fun". 

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Reminiscências

- Olha, o tio Tonico! Tio Tonico!
O senhor, que caminhava no corredor, olhou para o lado e viu a fonte da tentativa de grito: uma pequena mulher, com um casaquinho de tricô, próprio apenas para os que alcançaram certa idade na vida.
- Tio Tonico, quanto tempo!
Iza estendeu a mão e beijou no rosto o velho, seus olhos brilharam.
- Como vai o pessoal, hein? Manda um beijo pra todo mundo. Eu tô tentando falar com a Carminha, o Tião, mas aqui eu tô tendo muito trabalho, é dia e noite limpando essa casa toda! Nem minha mãe eu tenho conseguido visitar. Às vezes eu subo o morro, mas da última vez tava muito escuro, não consegui encontrar ela, não...
Tonico apenas sorria, já que não havia como entrar na conversa. Iza ditava o ritmo e cortava as pausas e qualquer possibilidade de resposta.
- Olha, eu tô querendo sair daqui, porque... aqui o pessoal é legal, é tudo bom, mas... Eu tenho que dormir aqui, não tô gostando disso. E meu pai, meu pai não gosta disso não. Haha é... ele quer a filha dele dormindo em casa, onde já se viu, eu tenho que sair às vezes de noite, andar no morro tudo escuro, acabo nem achando a casa. Mas quando me pagarem esse salário, eu vou sair. Quero ficar na minha casinha, comer minha comidinha. Tem que ver o pessoal né, eles sentem falta de mim também.
Olhando para o relógio e abrindo um sorriso desenganado pelas sobrancelhas, Tonico pegou as mãos de Iza, deu um beijo em suas bochechas flácidas e conseguiu falar pela primeira vez na conversa.
- É isso mesmo! Arranja um outro trabalho e... sucesso! Pode deixar que eu vou falar com todo mundo que você mandou lembranças. Tchau, tchau!
Iza tinha o olhar lacrimejante aliado ao sorriso sincero, apesar dos falsos dentes. Acompanhou a ida de tio Tonico ao longo do corredor, até ele sair pela porta de madeira que a separava do resto do mundo.
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Iza gargalhava enquanto uma moça acariciava sua mão, o que, aliado ao sol que fazia, discontraía o ambiente naquela tarde.
- Mãe não! Eu sou sua irmã, menina!
A risada era gostosa de ouvir, e espalhafatosa, soava longe; só era interrompida com as falas desenfreadas dela.
- Sua mãe tem que ser mais velha, eu não tenho idade pra ser sua mãe, não, mas te peguei no colo. Isso eu peguei. Todo mundo gostava de mim, e aqui também gosta. Eu ficaria aqui, mas eu quero ver minha mãe, aqui eles não deixam.
- Para de bobeira, eu sou sua filha! Esqueceu de mim, Flavia, mãe?
Iza não ouvia. Falava sem parar, e a tentativa de interrupção da filha foi apenas uma pequena interferência, facilmente contornada pela senhora, que agora mudava drasticamente o semblante.
- Eu tô com saudade da minha mãe... Ela quer me ver também, né, poxa. Tá certa. Ninguém tem filho pra deixar largado no mundo, não. Ela gosta muito de mim...
E assim continuaram, em um diálogo nonsense, por boa parte da tarde. Até o final da visita.
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- Bom dia, dona Iza!
A velhinha virou-se para ver quem a chamava, e olhou para o rosto do senhor, de barba e cabelo brancos, sorrindo para ela. Não sorriu, mas abriu os olhos, surpresa. Olhou-o, mas o máximo que conseguiu foi erguer as sobrancelhas e buscar um pouco de ar.
- A senhora não está lembrada de mim?
Iza apertava um pouco os olhos, botou uma das mãos no rosto do senhor.
- Ai, eu tô meio esquecida... Mas eu lembro de você sim, só o nome é que tá sumindo da cabeça.
O homem abriu um sorriso.
- Você tinha me chamado de tio...
- Tio Juca! Hahaha tá vendo, eu me alembro, mas eu tô meio ruim. Hahaha tio Juca! Tio Juca! Como é que tá o pessoal?
O homem solta uma gargalhada.
- Agora eu sou Juca? Eu era o tio Tonico outro dia...
O semblante de Iza fechou-se e um olhar de lado cortou a fala. Logo após, a velha gargalhou.
- Que tio Tonico, o quê! É tio Juca!
E abraçou o senhor, que riu mais ainda.
- Tio Juca, manda um abraço pra todo mundo, hein! Eu vou passar um dia lá, quando eu for na minha mãe!
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- Oi, mãe! Tudo bem? Tudo bem?
Flávia chegou cumprimentando a mãe e as enfermeiras do asilo que estavam comandando a atividade no momento: fazer colares e pulseiras com nylon e penduricalhos. Iza estava concentrada tentando enfiar o fio por dentro de um buraco pequeno em uma miçanga de plástico laranja. Era difícil de enxergar, era difícil de controlar a tremedeira das mão; ainda assim, conseguiu, e com a expressão mudando da preocupação para um sorriso iminente, olhou e viu Flávia.
- Oi! Tudo bem por aqui sim, e você?
Flávia abraçou e beijou a mãe.
- Vou roubar ela aqui de vocês um pouquinho, tá?
Iza olhou para a enfermeira mais próxima, suspendendo os braços com o colar inacabado, e deixou em suas mãos; levantou-se com dificuldade, apoiada nas mãos de Flávia, e ao final do movimento, virou-se para as meninas.
- Eu vou cá prosear, mas eu volto.
Sorrisos brotavam sempre com as frases daquela velhinha, não tão sensata, não tão lúcida, mas com uma capacidade de ensinar como levar a vida digna de inveja de qualquer guru. A filha colocou Iza sentada em um banco, para pegar um banho de jacaré.
- Sabe quem eu sou?
A velhinha piscou e abriu um sorriso largo, mostrando todo o amarelo de sua velha dentadura.
- Minha filha, ué.
E abraçou Flávia, rindo. Depois do abraço, continuava rindo.
- Por que? Não quer mais ser minha filha?
A filha sorriu e começou a conversar com a mãe, um daqueles assuntos que não se sabe nem por que eles vêm, nem a diferença que isso faz no mundo, mas quando a diferença mais importante é para uma pessoa só, foda-se o mundo. E de futilidades foram falando, até que Eduardo chegou e abanou as mãos na direção das duas. Aproximou-se e botou a mão no ombro de Flávia.
- Me chamou já de tio Juca e de tio Tonico. Né, dona Iza? Tudo bem com a senhora?
E ao responder que tudo estava bem, Iza já não lembrava do início da fala, quando foi dito que ela o chamava de Juca ou Tonico.
Mas não importavam mais suas reminiscências; tudo estava bem, isso é que importava.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Corrompendo

Prova de baliza. É o início da avaliação prática para obter a Permissão Para Dirigir do Detran. Não, você não consegue a Carteira Nacional de Habilitação se passar no exame, apenas uma permissão com a validade de um ano, durante o qual será avaliado, e só então, se não cometer infrações, receberá a CNH. Mas acho que isso não é interessante de discutir aqui, já que trata-se de ficção (mesmo que com muito de verdade nela), e não de informação; no entanto, um pouco de informação, quando não há sobre o que escrever, ou o texto é ruim, ou curto demais, sempre é recurso de algum charlatão que queira passar-se por escritor. Bom, sigamos o texto.
O nervosismo é visível no rosto de Carlos, que acaba de entrar no carro e tenta ajustar-se com o banco e o cinto de segurança. Sua gordura o atrapalha, bate o joelho no volante, seus peitos, após a compressão do cinto, parecem pender capengas da tira que cruza seu torso, como uma She-Ra nada sexy. Em certo momento ele ajeita a tetinha, e olha para o examinador, que só nesse momento desvia o olhar de sua prancheta diretamente para o peito cadente de Carlos, abrindo um sorriso amarelo de quem sabe que não poderá desver a cena.
- Vai lá, pode estacionar.
Carlos olha para o retrovisor. O suor escorre e pinga de sua sobrancelha direto para a camisa. Ele passa a mão com o indicador estendido na testa, como se fosse um limpador de vidros de automóvel; uma enchurrada cai no carro quando ele sacode a mão, e um pingo cai no bigode do examinador, sem que Carlos perceba - nem mesmo viu o olhar frio que o dono do bigode virou para ele. Carlos agora estava pronto, colocou a cabeça para fora, colocou a mão na marcha, engatou a primeira e foi para a frente. Alinhou o carro com a baliza, engatou a ré e começou a entrar na vaga. Umas novas gotas começaram a descer em sua testa, mas ele estava concentrado demais no retrovisor, vendo as balizas de trás; ao chegar no limite, olhou com os dois olhos para cima, mas ainda assim não conseguia ver as gotas de suor, e tirou a mão do volante para limpar a testa novamente. Nesse pequeno momento de distração, não percebeu, mas o seu pé do acelerador não parou de pisar, suavemente, e quando estava escorrendo a chuva que brotava em sua cabeça, ouviu o grito:
- Pare!
Sua mente trabalhou rápido, e automaticamente ele afundou o pé no freio, dando um solavanco no carro e fazendo gotas de seu suor gorduroso espalharem-se pela parte de dentro do parabrisa. O examinador tirou o cinto de segurança.
- Você queimou a faixa, está reprovado.
Carlos não estava entendendo.
- Como assim, queimei a faixa?
- Meu amigo, seu pneu passou da faixa que simula o meio-fio. Você está reprovado. Fica prestando atenção nessa suadeira aí, não está atento ao trânsito...
- Mas só por isso eu reprovei? Cara, eu preciso da carteira... Não pode ser só um err...
O examinador coloca a prancheta a poucos centímetros do rosto de Carlos.
- Olha aqui! Queimar a faixa, perde 4 pontos! Só pode perder 3. Reprovado!
- Poxa, mas você não pode...
Uma palma de mão, com os dedos totalmente abertos, surge perto da boca de Carlos, fazendo-o calar-se. O examinador começa a falar.
- Lógico que isso é um erro grave, mas pode ser que eu não tenha visto... Tudo depende de o senhor não querer pagar o DUDA e aulas de autoescola tudo de novo...
Carlos olha para ele e franze as sobrancelhas. O examinador tenta novamente:
- Isso aconteceu, eu estou vendo, olha aqui pelo retrovisor, consegue ver o seu pneu em cima da faixa? Mas... podemos chegar a um acordo e eu posso esquecer isso.
- Ah, então por favor, esqueça. Não vou repetir esse erro...
- Se você não quiser ter gastos com DUDA, com aulas de autoescola - repetiu o examinador.
Carlos franziu novamente as sobrancelhas.
- O senhor quer dizer, que eu teria que pagar algo a você?
- Se eu te reprovar você terá alguns gastos...
- Entendi... Então se eu te der R$ 100, você pode esquecer isso?
O examinador riu e colocou a mão na maçaneta da porta.
- Por R$ 100 eu abro essa porta agora e o senhor está reprovado.
Carlos esticou o braço e segurou o examinador no banco do carona.
- Calma... de quanto estamos falando, exatamente?
- Bom, só de DUDA você teria que pagar R$ 270...
- Fala logo, quanto você quer?
- Quatrocentos reais.
- Entendi... bom, então continuaremos fazendo a prova.
- Tá, mas só dou a canetada de aprovado após receber o dinheiro, senão, para todos os efeitos, você queimou a faixa.
- Não vou te dar dinheiro nenhum.
- Haha. Então sai do carro que a prova acabou.
Carlos pega sua carteira e retira de dentro dela um documento plastificado.
- Carlos Freitas, escrivão da Polícia Civil. Continuamos a prova ou você quer ir preso por suborno?
- Calma, calma, seu Carlos. Eu só tentei ajudar o senhor porque fui com a sua cara... Quê isso...
Carlos guardou o documento e a carteira no bolso.
- Foi com a minha cara o caralho, quer é encher o cu de grana suja, né, filho da puta?
Agora foi a vez do examinador começar a suar.
- O-olha, seu Carlos, eu acho que houve um mal-entendido. O senhor queimou a faixa, e eu tentei não te reprovar... Eu posso deixar por duzentos contos então, e o senhor continua a prova.
Carlos agora gargalhou.
- Hahahahaha! Acho que não estamos nos entendendo mesmo... Ou você me passa na prova, ou eu te levo preso por tentativa de suborno de agente público.
- Mas com isso o senhor estaria me subornando... Não com dinheiro, mas aliviando minha infração...
Carlos parou para pensar. O examinador continuou.
- E além do mais, temos uma câmera aqui no carro, que grava a prova inteira. Tenho provas de que o senhor está me subornando.
- Mas para isso, teria que mostrar que você tentou me subornar primeiro... E se é gravado mesmo, como é que você tenta arrancar dinheiro das pessoas, mesmo com o vídeo?
- Eu dou uma parte pro pessoal que trabalha com os vídeos; aí sabe como é, arquivo digital, alguns falham, né? Hehehe
- Hm, entendi. Mas enfim, a minha vai sair de graça, senão você vai preso por tentativa de suborno de agente de polícia.
- Mas você aqui não está na sua função, então isso se enquadraria como o quê? Qual seria a minha pena?
Os dois se olharam. Carlos abaixou a cabeça.
- Não sei... Comprei meu diploma de direito...
O examinador interrompeu a reflexão de Carlos, que estava com os olhos fechados, cabisbaixo, colocando a mão suavemente em seu braço.
- Seu Carlos, cento e cinqüenta, o senhor passa e a gente dá um sumiço nesse arquivo, pode ser?
Carlos fez que sim com a cabeça, engatou a primeira e continuou a prova. E, claro, foi aprovado.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Desejos

No mesmo lugar de sempre. Ele terminou sua refeição, e agora, como já é usual, procura por ela. Comeu como um touro, e o encontro com ela passou a fazer parte do que o próprio chama de terapia: alguns minutos com ela e ele já estaria disposto a voltar ao batente; quando ela não estava, ele voltava à mesa do almoço, permanecia por horas a fio, olhando para algum ponto qualquer, sem olhar nada.
Ela não estava lá, mas havia uma outra. Mais nova. Hesitou. Fez a aproximação mais cuidadosa, e esbarrando levemente nela, sentiu-a: era firme, possuía uma rigidez no lugar da flacidez da outra. Aquilo não ajudava.
Ele já estava acostumado à flexibilidade da outra; a facilidade com que ficava molhada por inteiro; o modo como ela encaixava-se suavemente em suas mãos e deslizava por onde ele passava. Mas tentou. Pegou de mal jeito, e percebeu que realmente, ela era toda dura. Não caiu-lhe perfeitamente na mão. Mas tentou, mesmo assim.
Após algum tempo, ela não estava molhada por inteiro, mantinha-se meio seca, se é que era possível isso. Ou apenas era um bloqueio de sua mente. Mas assim é a vida. Provavelmente nunca mais encontraria a outra (a essa hora, onde estaria? Talvez jogada em algum lixo por aí); e afinal de contas, a "outra" havia substituído uma outra anterior a ela... E é assim que o mundo gira.
Foi horrível, mas ele sabia que com o passar do tempo, essa nova acabaria ficando mais maleável, exatamente como era a esponja velha.
Ele odiava lavar a louça, ainda mais quando trocavam por uma esponja nova.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Homicídio

Hora de matar.
Você agüentou por muito tempo essa convivência escrota, absurda, apenas por um puro moralismo. Sim, uma fraqueza moral, para dizer a verdade: não conseguia aceitar a idéia de matar. Mas passam-se os anos, a convivência diária vai ficando insuportável, e você percebe que ela merece ser morta.
Bateu o martelo, finalmente, seu frouxo! O negócio agora é decidir "como". Bom, minha opinião, você sabe: evitar o uso de armas de fogo; muita bagunça para pouca criatividade. Machado é sempre uma boa pedida, senhor. Sim, sim. Brutal, primitivo, sem muita firula. Mas é necessária habilidade e frieza para MATAR; não basta aleijar ou causar danos. Facão, ok também. Cortes são bonitos, chocam e permitem os mais diversos ataques, aos pontos mais variados do corpo. Acertando um letal, tudo certo.
Ah, o convívio com ela começou cedo, não? Quanto tempo faz? 20 anos? Pouco mais? Enfim... ela começou chegando-se, inocente, e foi crescendo em importância na sua vida. Quantas coisas você fez por causa dela? Tudo o que ela lhe inspirou... Surgiram coisas bonitas, de verdade. Mas quando chega a hora, não tem jeito.
Vá lá. Mate-a.

Eu sempre adoro quando chega a hora de matá-la.
Ela.
A vontade de suicidar-se.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Crônica de uma morte viajada

Fim de noite. Alguns poucos amigos ainda estavam em sua casa. Gustavo estava sentado distante, não que não gostasse das pessoas, mas interagia muito pouco quando estava doido. E ele estava doido. Havia tomado um selinho de LSD, e estava totalmente absorto ouvindo a música do ambiente. Gostava de sentir como músicas triviais ganhavam camadas extras quando ele estava sob efeito do ácido, mais até do que as alucinações visuais. Algumas músicas passavam a ter a experiência de ouvi-las alterada depois de prestar atenção na sua totalidade (música pura mais o que está escondido para os viajantes desse mundo), fazendo com que ele gostasse mais delas.
E no exato momento em que tocava "Ashes to Ashes", do Faith No More, e ele viajava sobre brigas entre baleias gigantes e alcatéias de lobos-do-ártico, no ártico (porque numa viagem, dependendo do selo, isso pode acontecer até no inferno...), um estrondo surpreendeu-o, tirando-o do delírio, e a música pareceu esmaecer. A alcatéia e as baleias saíam cada uma para seu lado, dissipando a viagem de Gustavo, e ele lentamente abriu os olhos para tentar compreender o que estava acontecendo. Algo chamou-lhe a atenção no bar de canto de sua casa, e ao cerrar um pouco os olhos - algo que psicologicamente funciona como uma tentativa de dar foco à visão - , percebeu que ali estava um homem que ele não conhecia, encarando-o. O sujeito realmente era estranho - o fato da visão de Gustavo estar em um constante ir e vir em um zoom maldito ajudava a achá-lo estranho, talvez - , e no entanto, parecia ser a sua casa, tão à vontade que estava: uma camisa de botão preta com estampas quase radioativas de tão coloridas, aberta até a metade da barriga; em uma das mãos, uma taça com alguma bebida dentro; e no rosto, um sorriso cínico dos mais vagabundos.
O sujeito começou a vir na direção de Gustavo, que tentou desviar o olhar, para o chão, depois fechou os olhos, ficando cada vez mais tenso na medida que sentia o sujeito aproximar-se. "A merda do meu safe place, caralho... respeita meu safe place...", pensava, angustiado, o anfitrião chapado. Sentiu, mesmo com os olhos fechados, algo cortar-lhe os resquícios de luz que batiam nas pálpebras e teve certeza que aquele cara estava na sua frente, tão próximo que... sim, conseguia sentir o hálito de bebida forte vindo daquele desconhecido, a uma distância que, em sua juventude, seria considerada a distância anterior a um beijo de língua bem babado em alguma garota. Fechou ainda mais o olho esquerdo para que abrisse apenas um pouco do olho direito, o que o fez ficar com uma careta de criança birrenta, com a boca puxada para o lado esquerdo. Ao abrir, o que viu foi um imenso rosto desconhecido mais próximo do que ele gostaria, com um imenso sorriso debochado e olhos esbugalhados que convergiam para o seu. No susto, Gustavo abriu os dois olhos e jogou-se para trás, instintivamente. O sujeito ria e sentou-se ao seu lado, dando-lhe um tapa na coxa, com uma intimidade que não fazia sentido.
- E aí, Gustavo, vamos conversar?
Gustavo olhou para o sujeito, sem entender o que estava acontecendo, se era algum conhecido que por culpa da viagem de ácido ele estava apenas enxergando alguma camada nova que ele nunca havia notado.
- Cara... eu só quero...
- Ficar sozinho, eu sei... - interrompeu o fanfarrão. Olha, eu sei muito mais sobre você do que qualquer um, e acredite, acho que gostaria de saber o que eu posso te contar. Vem, tem muita gente aqui.
O rapaz levantou-se e caminhou em direção ao quintal, um lugar que realmente estava mais vazio do que a casa, já que não havia bebida lá fora. Gustavo sem saber muito o porquê, acabou seguindo as estampas berrantes da camisa, com sua percepção de espaço ainda alterada e causando-lhe uma certa vertigem.
Ao chegar no quintal, Gustavo encontrou o estranho encostado em uma pequena árvore que começava a crescer ali, apoiando-se com um dos pés na mesma. Aproximou-se dele, sabendo que ali na casa dele era para ter apenas seus amigos.
- Quem é você, cara? Desculpa, mas eu tô meio...
- Meio chapado? Cara, você tá viajando bonito com esse LSD aí! Você tava tocando altos instrumentos imaginários enquanto tava sentado ali, e pouco antes de olhar pra mim, você tava uivando, cara. Sim, uivando, e o pior, no ritmo da música. Hahahaha!
Meio constrangido, ele lembrou-se da briga entre baleias gigantes e lobos-do-ártico que passou em sua cabeça há pouco tempo atrás - embora ele não tivesse a certeza que era pouco ou muito tempo atrás. Sorriu sem graça, mas subitamente lembrou-se que não foi respondido.
- Tá, mas... quem é você?
O sujeito abriu um sorriso enorme, empolgado.
- Eu sou um mensageiro. Meu nome é Hermes, mas pode chamar de anjo, de demônio, de alucinação, de epifania, foda-se. O que importa é que sou o cara que vai te falar da tua morte, cara!
Gustavo olhou assustado para ele, mas com um misto de animação. Adorava falar sobre morte, e fantasias de seres sobrenaturais. Achou linda essa doideira toda que o ácido lhe causava; era a primeira vez que conversava com alguém que não existia, no entanto.
- Uau! Haha, cara, conta aí, espero que eu lembre disso amanhã.
O mensageiro sorriu contido e sentou-se, sendo acompanhado em seguida pelo anfitrião.
- Vai lembrar sim, Gustavo. Vai lembrar por conta do desespero, mas espero que isso não te atrapalhe. Veja isso como uma chance de aproveitar a vida como poucos têm. Nem todo mundo recebe essa mensagem.
O clima, que era tão amistoso e de animação, começou a ficar estranhamente pesado, com o tom de Hermes ficando cada vez mais sério. Ele continuou.
- Você vai morrer daqui a pouco mais de uma semana. Exatamente na madrugada de domingo para segunda, às 3:33.
Gustavo ficou sério, chocado com a revelação, com o modo como a mensagem estava sendo passada. Uma fala carregada de pesar e de pena, disfarçada com um sorriso, amenizou o clima.
- É metade de 666, né? Hehe isso aí fui eu que negociei pra você, porque eu sei que você se amarra nessas coisas. Eu também curto essas zoações, Gustavo.
O anfitrião estava tenso, e arrancava alguns matos do chão, deixando-o com as unhas cheias de terra, enquanto pensava no que estava sendo dito para ele.
- Você é minha pior bad trip, cara. Tô ficando assustado...
Hermes abraçou-o, chegando novamente próximo a ele, como um amigo íntimo bêbado querendo animá-lo após alguma notícia péssima.
- Cara, como eu disse: veja isso como uma chance. Você está sendo avisado, eu nunca faço isso assim, explicitamente, mas eu acho você maneiro, mesmo. E lógico, o LSD ajudou bastante para eu poder fazer essa comunicação extra-sensorial.
- Porra, você existe ou não existe? Vou ficar com um cagaço de morrer essa semana... - Gustavo olhava diretamente para os olhos do mensageiro, e o que ele via ali era um pouco de compaixão e... verdade.
Hermes agarrou sua cabeça colocando-a entre suas mãos abertas, puxou-o para muito perto, e para que olhasse frontalmente em seus olhos, sem poder fugir do que via, e falou sério com ele.
- Você não vai morrer durante essa semana, Gustavo. Você morrerá na madrugada de domingo para segunda, às 3:33. Entendeu? Madrugada de domingo para segunda, às 3:33. Preciso repetir?
- Não...
Gustavo voltou a olhar para o matinho que ele arrancava inconscientemente da terra, cabisbaixo. Hermes começou a levantar-se.
- Olha como eu fui legal contigo, deixei você morrer após aproveitar o máximo do fim de semana e sem precisar ir trabalhar na segunda!
Ao olhar para cima, Gustavo viu Hermes virando a bebida que ainda estava em sua taça, e desesperado fez a pergunta mais óbvia, após saber quando iria morrer.
- Mas de que eu vou morrer?
O mensageiro da morte, após terminar o gole, tacou a taça na cabeça do chapado, que apagou sem ter uma resposta.
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Gustavo acordou assustado em sua cama, ao lado da namorada, Patrícia. A levantada súbita acordou a garota, que sorriu.
- Nossa, veio de outro mundo, hein...
Ele olhou-a, com olhos que o faziam parecer um lêmure. Nem foi preciso pedir explicação.
- O Sr. Chapado que dormiu no quintal, falando sozinho e com uma taça quebrada.
- Mas eu nem bebo quando uso LSD, você sabe! - reagiu Gustavo.
- Não bebia, né... ontem parece que misturou e ficou doidaço!
Uma pontada de tristeza invadiu-lhe a mente, mas ele não conseguia entender o porquê. Aos poucos, no entanto, a memória trouxe algumas partes da noite anterior. Patrícia estava falando com ele, mas em sua cabeça só havia espaço para a lembrança de Hermes, o papo da morte... a data veio, fazendo-o dar um salto da cama.
- Nossa, não tá me ouvindo não, Coisa?
Adorava quando ela o chamava assim, mas realmente, estava começando um domingo que segundo sua última viagem seria o penúltimo de sua vida. Deu um beijo rápido na garota, e sabia que precisava pensar sobre isso, e fez o que era de costume quando queria pensar em algo sossegado: entrou no banheiro.
Após quase uma hora tentando decidir se era uma alucinação muito forte por ter misturado ácido com bebida, ou se foi realmente um portal de outro mundo que apareceu em sua vida para o aviso fúnebre, não chegou a conclusão nenhuma. Seu ceticismo não o permitia aceitar aquela doideira toda, misturando seu goticismo depressivo com mitologia grega. "Mas quer saber, pelo sim, pelo não, vou tentar aproveitar".
Ligou para o chefe e pediu compreensão, mas precisava tirar a próxima semana para resolver assuntos sérios de sua vida. Como sua voz era realmente triste e parecia vir de um abismo, tão apático ele soava, o chefe não pediu explicações e permitiu que tirasse o tempo necessário, mas que se cuidasse. Gustavo consentiu.
Decidiu que não explicaria o motivo de estar afoito para ninguém. Avisou a Patrícia que tiraria a próxima semana de férias, e que se fosse possível, ela pelo menos folgasse durante alguns dias para poderem passear, mas avisou-a de que teria que passar na casa de algumas pessoas importantes para ele: família, amigos, e que não poderia esperar que ela chegasse do trabalho para o tal, e que iria fazer isso durante a semana. A garota não entendeu nada, a pressa dessas visitas, e começou a argumentar que isso os atrapalharia quando quisessem tirar férias juntos. No que os tons começaram a elevar-se, Gustavo disse que não queria brigar. Como amava aquela garota e odiava brigar com ela por motivos bobos... Mas sempre que pequenas coisas saíam dos lugares, podiam virar brigas feias, estúpidas e sem motivos reais. Mas ele não tinha tempo para isso; sabia que ficaria uma eternidade ao seu lado, quanto mais uma semana. Beijou-a e disse que apenas sentia que precisava fazer isso, e não queria brigas durante aquelas férias surpresas. Começaram o domingo transando antes do almoço.
Gustavo aproveitou os dias ao máximo, alongando as noites o máximo que podia com Patrícia, e acordando cedo para passeios. Passou um longo dia com os pais, vendo fotos de quando era mais jovem, relembrando histórias da infância e juventude, e óbvio, pediu para os coroas fazerem a comida que ele mais gostava de cada um. O caldo de aipim com carne seca do pai; as batatas gratinadas e a lentilha da mãe. Continuavam com o mesmo gosto de quando era mais jovem, e a família continuava divertida.
Foi uma semana de encontros com diversos amigos que não via há tempos. Passeou com a sobrinha, uma das criaturas mais queridas por ele, mas que o trabalho, a distância e a vida corrida acabavam fazendo com que não se vissem tanto quanto gostaria. Patrícia tirou duas folgas e viajaram para lugares próximos, aproveitando cada momento da viagem. Tanto com os amigos, quanto com a família ou até mesmo com Patrícia, teve que segurar o choro diversas vezes, sempre que pensava que estava perto de morrer e aqueles eram escolhidos para compartilhar com ele os últimos momentos da vida; isso lhe dava uma tristeza e uma alegria imensas, uma mistura de extremos de cada sentimento. Mas não podia chorar, não podia falar com ninguém sobre isso. Como explicaria que um selo de LSD lhe abrira um portal e fizera com que tivesse uma epifania de sua morte através de Hermes? Iam interná-lo como louco, e ele não podia perder tempo explicando nada; precisava viver.
E assim fez, intensamente, até chegar a noite de domingo. Ele e Patrícia estavam sentados no quintal, no mesmo local onde Gustavo teve as revelações. Abraçados, olhavam para o céu, e a lua estava cheia, foda, um banho de contraste naquele azul quase roxo do céu.
- É, Coisa... amanhã você volta ao trabalho, né... Foi muito boa essa semana! Ao menos o tempo que eu passei com você né, porque ficou saindo pra um monte de lugarzinho... - Patrícia falava, debochando, mas sem brigar.
Sentiu o choro vir, mas continuou olhando firme na lua, enquanto sabia que os olhos estavam úmidos, e aquela ânsia estava subindo na garganta já. Engoliu aquele choro; agüentou até agora, não seria no final que ia fraquejar.
- É. Foi uma ótima semana!
Patrícia levantou-se e deu uns tapas em sua própria bunda, para tirar os matinhos e a sujeira de terra do short.
- Mas agora vamos deitar, que amanhã voltamos pra rotina?
Gustavo continuava sentado, olhando a lua. Olhou Patrícia e sorriu.
- Vamos ver um filminho antes de dormir...
- Ai, você sabe que eu vou dormir... tá tarde... - Patrícia reclamava, mas já estava acostumada a começar a acompanhá-lo vendo um filme e dormir pouco depois, para no dia seguinte perguntar sobre como terminou (sendo que mal via a história começar a desenrolar-se).
Ele levantou e deu um apertão em sua bunda, e os dois correram para dentro de casa.
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Saíram do banho após transarem na sala, assim que entraram do quintal. Gustavo colocava um filme no DVD. "Trinta anos esta noite". Patrícia pega a capa do DVD e faz uma cara de nojo com um riso sarcástico.
- Ai, filme velho, preto e branco... vou dormir rápido nesse...
Gustavo sorri.
- Vou escovar os dentes, na volta eu dou o play.
- Se eu ainda estiver acordada, eu vejo... - brincou Patrícia.
Ele sorriu e agarrou-a, dando um longo beijo e percorrendo seu corpo com as mãos. Soltou-a depois de um tempo e foi para o banheiro.
Olhou o relógio: 01:07. Faltavam pouco mais de duas horas para sua morte. Começou a escovar os dentes. Embora adorasse o tema, Gustavo morria de medo da morte e tudo o que se relacionava com ela: sangue, hospital, etc. Cagaço mesmo, desses de fazer passar vergonha. Estava perto de confrontar-se não com um desses subtemas, mas a própria morte, em breve. Ou poderia ser só alucinação aquilo tudo. Mas o medo era maior por não saber como iria morrer. E se sofresse muito? E se jorrasse sangue? E se batesse o desespero que o fizesse esquecer dos lindos momentos que tivera na vida, e principalmente os que estavam mais frescos, daquela semana? Os últimos momentos, quando você vê toda a sua vida passar rapidamente, não podiam virar uma luta inútil contra o destino fatal em uma tela preta em sua cabeça, só por conta do desespero. Era melhor morrer dormindo, conclusão final, ao término da escovação.
Pegou um remédio para dormir e tomou, para ajudar a passagem, mesmo que artificialmente. Estava voltando para a cama, quando pensou em acordar nos momentos finais de uma parada cardíaca, já morrendo e desesperado por puxar um ar e não conseguir forças para tal. Voltou ao banheiro. Tomou mais um remédio. Dois devem dar conta do recado.
- Vem logo, Coisa! Eu vou dormir, hein! Que tanto faz no banheiro? Tá batendo punheta, é? - gritou Patrícia, deitada na cama. Pode vir que eu agüento mais uma trepada... Filme é que eu durmo...
Gustavo riu. Partiu para a cama e deu umas lambidas em Patrícia, brincaram um pouquinho mais. 02:18. Foi lavar-se no banheiro enquanto Patrícia ficou na cama. Ele sabia que na volta ela já estaria dormindo dessa vez. Olhou-se no espelho. Estava feliz.
Tomou mais nove pílulas e partiu para a cama.
Ele deu o play no filme. Não conseguiu ver até o final.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Dia 1 - sobrevivência

Rio de Janeiro. Dia 1. Não sei bem quando aconteceu. Como toda guerra, a hora exata do começo ou do fim são delimitadas apenas nos livros de histórias, após a guerra acabar, e por gente que não esteve  nas batalhas. Mas essa não terá ninguém para escrever sobre, é a luta final da humanidade, ao menos no hemisfério sul. Resolvi chamar esse 1 de janeiro de 2017 de Marco Zero da Verdadeira Grande Guerra. Espero que não se incomodem.
São 6:35 da manhã do dia 2 de janeiro. Chamo de Dia 1 porque sobrevivi ao Marco Zero. "Sobrevivi", eu quis dizer. Afinal de contas, não sou velho aposentado e nem criança remelenta para me dar ao luxo de acordar nesse horário sem precisar - pois apenas os desocupados acordam voluntariamente na hora em que os ocupados precisam acordar; embora me ache um desocupado funcionalmente falando, quis dizer socialmente. Talvez fosse melhor eu expressar-me dizendo que só os que não lambem uma buceta com vontade ou que não devoram um caralho com a voracidade de uma pessoa faminta - os velhos ou as crianças - acordam sem motivo a essas horas da madrugada, em condições normais. Mas a VGG (verdadeira Grande Guerra) não tem nada de normalidade.
Muitos sucumbiram antes do Dia 1 raiar. Tenho minhas dúvidas se eu não preferia ser um deles. O calor entra em minhas narinas e rasga-me por dentro; o ar sufoca, e não há poesia nisso, acredite. São agora 7:28, e tenho traçadas apenas algumas linhas. Deitado, com dois ventiladores em cima (ar condicionado foi extinto pelo governo , agora, apenas quem é do mesmo - governo, que fique claro- pode usar esse aparelho), mas a moleza no corpo não me deixava dormir ou escrever: o vento gerado apenas servia para espalhar as gotas de suor pelo corpo, como se os ventiladores brincassem de ping-pong orgânico, rastro de suor embaixo do peito, para a esquerda... Parei, entrei no banho, joguei-me nu e molhado, com os pêlos do saco e da barba pingando, em frente ao ventilador. Refrescante, porém temporário. O saco contrai-se e os ovos dançam, como se estivessem vivos; a superfície vai enrugando-se e ficando seca. As poucas gotas de água estão nas pontas dos pêlos já, a sensação térmica agradável some e é melhor começar o preparo psicológico para o dia que nasce. Por isso demorei quase uma hora para esse esboço de diário. "Por causa do balé de suas bolas?", você pensa; é, pelo balé das minhas bolas.
Olho o mapa. Piscinas a serem invadidas durante o percurso, mar aberto que serve de refúgio. Bolsa fechada a vácuo para que os mergulhos não enferrugem as armas: Ok! A caminhada rumo ao aeroporto é longa, e o calor está, literalmente, matador. O clima nas ruas é de guerra, e preciso partir antes que todos tenham a mesma idéia: conseguir na brutalidade uma passagem para a Dinamarca, Suécia ou qualquer lugar onde eu consiga sobreviver, diferente dos 87º do Rio de Janeiro - pois a inflação desses bilhetes, devido à lógica do livre mercado, fez atingir valores que apenas quem já roubou mais do que pode gastar em vida tem a chance de comprar. E sim, onde eu possa refrescar meu saco. Tudo gira em torno da região pélvica depois de certa idade.
Abro a porta. Minhas narinas queimam por dentro, preciso me acostumar. É hora de sair. Espero que volte a escrever no espaço para o Dia 2.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

The most efficient psychopath introduce (A apresentação mais eficiente para um psicopata)

- Hi, my name is John.
I like to kill people who says "Why, John?"
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Oi, meu nome é Pedro.
Eu gosto de matar pessoas que dizem "Por que, Pedro?"


Não sei o porquê essa merda surgiu na minha cabeça em inglês e pareceu melhor em inglês. "Why, John?" soa melhor que "Por que, Pedro?". Eu acho. Foda-se.

Felicidade não se alcança com padrões

Viviam discutindo. Ele, um rapaz que achava que a felicidade seria alcançada se simplesmente seguisse os passos de um "Jogo da vida": nasce, estuda, se casa, tem filhos, o bode come uma orquídea rara, acha petróleo no quintal de casa, é julgado e se aposenta milionário. Ela, achando que a vida era um "Banco Imobiliário": você nasce, começa a pagar por tudo, e morre pobre, sem ter tempo de fazer o que queria. Por conta disso, ela era de aproveitar qualquer momento, enquanto ele queria crescer e ser o modelo de adulto que o mundo esperava.
Mais uma vez discutiam por alguma besteira. Cruzaram belos cenários, em um lindo pôr-do-sol, solenemente ignorados por conta do foco ser algo que sequer se lembram hoje em dia. Novamente, não se lembram por motivos diferentes: ele, por conta de um trauma causado após a discussão; ela... Bom, chegaremos a esse ponto, voltando um pouco para contar. Vamos a uma fala dele da última discussão, enquanto andavam:
- Mas nosso bode está lá no quintal, solto, e acabou comendo a orquídea rara do nosso vizinho! E onde você estava quando isso aconteceu?
Ela fica muda, pois não faz idéia de onde ou o que estava fazendo. Lendo, talvez, ouvindo música, talvez, cagando... enfim, qualquer coisa que não seja olhando para um bode no quintal. Após o silêncio urbano, que de silêncio só tem o nome, ela arrisca:
- Tá... Mas isso não vai mudar agora.
- Nada vai mudar agora, nada.
Ela não entendia o porquê de as pessoas esperarem mudanças sempre no sentido da "responsabilidade", de deixar o entretenimento de lado. Isso a cansava.
Caminharam, mudos, trocando poucas palavras, gradualmente cada vez mais ríspidas e menores.
Separaram-se no ponto de ônibus. Ele deu um beijo quase que obrigatório, porque a sociedade pedia - por serem um casal.
- Tchau - disse, seco, e embarcou em seu ônibus, que estava parado no ponto final.
Ela não conseguiu falar nada. Apenas seguiu seu caminho, olhando fixamente para pontos aleatórios da calçada. Uma folha. Uma guimba de cigarro. Dois pés aproximando-se e passando lateralmente por ela. Outra guimba de cigarro. Um copo de plástico rasgado em forma de florzinha. Dois pés aproximando-se, frontalmente a ela. Vai bater. Pararam.
- Passa a bolsa e o celular.
Ela levantou a cabeça. O ônibus que ele pegara, há uns cem metros atrás, fecha as portas para sair. Ela olha, sem saber o que fazer, ainda perdida em seus pensamentos, para o homem, baixinho, seu rosto com cicatriz, altamente clichê, e a mão na altura da cintura segurando o que parece ser uma arma de fogo.
- Tá surda? Passa a porra da bolsa e o celular!
Pensa o que tem na bolsa. Um livro, papéis amassados, provavelmente uma banana que deve estar há uns dois dias esquecida, modess, e mais algumas porcarias. O celular, foda-se. Todo mundo perde celular hoje em dia. Racionalmente, era entregar a bolsa e o celular e seguir o caminho, com olhar perdido, talvez um pouco mais perdido por conta da violência surpresa, mas nada que mudasse o mundo. Vida que segue. O ônibus do rapaz saiu do ponto. Mas ela enxerga nesse assalto cotidiano uma oportunidade, sim, uma visão empreendedora: onde parecer algo ruim, veja todos os lados e procure tomar vantagem da situação. Talvez essa era uma oportunidade única (única é forçar a barra... isso poderia acontecer muito mais vezes) para ela. Quem sabe esse sujeito não fora colocado em seu caminho por um motivo? Seria ele um anjo? Talvez ele pudesse ajudá-la a concretizar um antigo sonho que, ironicamente, só precisava de um gatilho (prum trum txx!) para ser realizado.
Ele tentou puxar a bolsa com a mão que não estava segurando o revólver. Ela decidiu que reagiria, e segurou a bolsa. Ele tentou puxar novamente, visivelmente irritado. Ela segurou de novo.
- Não vai levar nada, seu merda!
Ela gritou isso, consciente de estar provocando. Havia um sorriso surgindo em seu rosto, ao mesmo tempo em que passava em sua cabeça milhões de imagens de sua vida. Nem eram milhões, mas faz parecer mais dramático e mais poético do que dizer que ela travou as memórias de sua vida tentando lembrar da cena em que Patrick Swayze é morto em Ghost, e ela nem lembrava tão bem assim. Olhava atentamente para a mão com o revólver, quando ele foi puxado. O ônibus em que o rapaz estava passava próximo ao local do assalto nesse momento, em que ela, agarrada à bolsa, tentava ganhar o cabo de guerra do assaltante. Pessoas no ônibus levantaram de seus assentos para ver a ação.
- Ih, ali, a vagabundagem - disse um passageiro, chamando mais ainda a atenção dos passageiros.
O rapaz olhou, curioso de saber do que se tratava, e viu sua parceira agarrada à sua bolsa, viu o assaltante fazer um movimento brusco com um dos braços, e viu 3 clarões, seguidos de um som característico (metropolitanos sabem diferenciar bem sons de tiros e de fogos), seco.
- Eita! Mete o pé, piloto, que a coisa tá braba! - disse o mesmo passageiro que gritou acima, um narrador nato do caos urbano.
O rapaz fez sinal para descer. Olhava atônito a cena. Viu o líquido jorrar da cabeça da menina. Viu os tiros. Viu-a ser impulsionada para a cerca com os tiros. Mas ele não viu na hora foi o sorriso de satisfação dela. Finalmente, conseguia vencer a covardia que era empecilho para tonar o mundo mais agradável. Ao menos para ela, o único jeito de não ver mais com pessimismo o futuro: não tê-lo.
E os dois tiveram um mesmo pensamento, sincronia mesmo - depois que ela conseguiu livrar-se da cena de Ghost- : o "tchau" seco, o último beijo. Os dois quiseram mudar isso, mas o personagem do revólver estava cagando, aliás, ele nem tinha acesso aos pensamentos deles, como eu, narrador privilegiado, tenho. 
E todos foram felizes para sempre.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

A Linha da Vida

Marcelo havia acordado, e ainda zonzo de sono, uma imagem o fez arregalar os olhos: a linha da vida de sua mão aparecia cortada por outra linha. Desesperou-se, pois acreditava piamente em quiromancia, e via a morte interrompendo sua vida abruptamente antes do fim que deveria ser. E sim, conhecia bem sua própria mão para saber que aquela linha nunca estivera ali.
Naquela manhã não conseguiu tomar café: pegar uma faca para passar manteiga no pão parecia assustadoramente ameaçador; tirar o rótulo do iogurte, daquele metal fino, podia fazer um corte em sua mão que o faria esvair-se em sangue - é bizarro, mas existem mortes bizarras; não tinha copo de plástico, e copo de vidro, quebrando, sabe-se lá onde os estilhaços podem parar... Era melhor não tomar café.
Pensou em ligar para alguém, mas lembrou das notícias de mortes porque o celular estourou na cabeça da pessoa. Tirou tudo de casa da tomada, para evitar um curto-circuito e eventual incêndio. Deitou-se na cama para não levantar e acabou dormindo. Quando acordou, de bruços, percebeu que poderia ter sufocado caso vomitasse, já que estava tonto de fraqueza, por não ter comido o dia inteiro. Levantou-se e foi tomar um banho para manter-se acordado. Já nu, a idéia de passar sabonete, com a água, podia acabar escorregando e morrendo ao bater a cabeça na parede ou no registro do chuveiro. Melhor não tomar banho. Queria comer algo. Olhou a geladeira, desligada, e não sentiu-se firme para pegar nada lá que não o pudesse matar. Sair de casa, nem pensar: assalto, seqüestro-relâmpago, bala perdida. Voltou para a cama e cercou-se de travesseiros para que não pudesse virar de bruços.
Foi acordando e voltando a dormir... fraco. Acordando e voltando a dormir, sem levantar. Sua geladeira, que havia deixado levemente aberta, estava com moscas e vermes nas carnes, fungos, totalmente tomada por vida podre. Marcelo estava um caco, magricelo, com olheiras profundas e sem levantar da cama, quase atrofiado pelos dias em que passou, imóvel. Olhou mais uma vez para a palma da mão. A linha que cortava a linha da vida estava mais forte, marcada profundamente, e com um formato peculiar. Reuniu todas as suas forças e levantou-se, com dificuldade. Caminhou, trôpego, até a cozinha. Pegou um facão e olhou, reflexivo. Realmente, era o mesmo formato do corte na linha da vida: a lâmina do facão. Esfaqueou sua barriga até não mais conseguir. Esvaiu-se em sangue, cuspiu sangue, e jogou o facão longe, e caiu sentado na cozinha. Em poucos minutos moscas varejeiras pousavam em sua ferida. Marcelo não tinha forças nem para espantá-las. Sorriu, e a cabeça foi caindo, próximo à geladeira.
A metamorfose não foi em borboleta, mas em uma casa de vermes, que no final, virou apenas milhões de vermes disforme. Lindo de se ver, com um cheiro pútrido inigualável.
A quiromancia não mente.

O Trem que Não Passou

Felipe entrou na estação às 4:17 da tarde; ao menos era o que marcava o grande e esdrúxulo relógio da estação de trem. Era domingo e ele estava sozinho na plataforma, o que fazia parecer que um trem devia ter acabado de passar, para seu desespero. O trem demora mais no domingo, "mas há de chegar", pensou ele.
Para variar, estava atrasado, e nessa condição, cada minuto perdido é um lamento. Podia começar a pensar em mentiras para justificar o atraso - o que geralmente fazia - , mas preferiu começar a refletir sobre sua vida. Próximo de completar 40 anos, afinal, sentia-se maduro e com experiência o suficiente para analisar sua trajetória. E óbvio, automaticamente, quase que instintivamente, separava um tempo para reclamar da porra do trem que não passava (mesmo tendo passado da roleta há menos de 30 segundos), como que em um intervalo da análise.
O fato de estar atrasado fazia-o pensar de cara em seu trabalho: ambiente que já o encheu de alegrias, mas que recentemente virava um fardo em sua vida. E lá estava, Felipe na estação, pensando em como passaram rápidos os 15 anos de firma, e como foi rápida sua ascensão; mas também foi rápida e duradoura sua estagnação.
- Merda de trem que não passa!
Felipe chutou um copo de Guaravita que estava no chão em direção à linha do trem, mas o copo parou ainda na plataforma, bem longe de cair. Lembrou de ter sido o destaque entre os estagiários por sua percepção e capacidade de repensar rotas rapidamente; e de quando deu uma sugestão sobre como economizar com envios de catálogos aos clientes - o que economizou muito dinheiro da empresa -, e seu chefe o promoveu direto a supervisor de logística. Foi apresentado ao dono da empresa como "um possível gerente daqui a dois ou três anos", por conta da sagacidade e perspicácia. Hoje, 14 anos após a promoção, continuava um supervisor, e mediano até, com suas "glórias" esquecidas. O relógio marcava 4:23.
- Eu devia ter pego um táxi!
Não parava quieto; sentou por menos de um minuto e agitava-se, como um animal selvagem em jaula, andando de um lado para o outro. Chutou novamente o copinho de Guaravita, que parou, obedientemente, atrás da linha amarela. Pensou em sua vida em família, o amor por crianças e a expectativa que desse um bom pai e um bom marido. No entanto, trocou de amores como quem trocava de cueca, e nunca teve um filho. Sobrava vontade de ter uma criança, mas não tinha como pensar nisso, e realmente deixava para lá. A família tinha outras fontes de bebês, e podiam dormir sem isso, afinal, anos 2000, superem essa idéia de que é preciso uma família para sentir-se realizado. Olhou para o relógio: 4:29.
- Domingo é foda. Ainda vou chegar lá, vai estar passando a porra do Faustão...
Um novo bico e o copo de Guaravita finalmente caiu na linha de trem. Olhou para as pedras e na hora pensou em seu hobby, pintar pedrinhas e montar cenários em pequenas caixas de vidro. Começou quando adolescente, e fazia cenários toscos e pobres que remetiam a filmes B ou séries como Chaves, Chapolin. Fazia um sucesso entre os amigos, e foi aperfeiçoando. Teve uma época em que chegou a fazer cenários de séries que estavam em voga - e realmente, trabalhos bonitos que chamavam a atenção -, e apareceu em uma matéria de um jornal popular. Os amigos e familiares ficaram empolgados, pessoas entraram em contato para encomendar cenários específicos, mas ele recusou. Era apenas um hobby e não estava afim de comercializar o que fazia para se divertir. Com a cobrança, passou a fazer menos e menos, até que parou de fazer e jogou muitos dos antigos fora. O relógio estava cravado em 4:35.
- O trem que não passou... - resmungou, com o olhar apático, olhando para o horizonte, quando a linha férrea encontrava um muro.
Não era mais o único na estação, mas, domingo, a estação continuava relativamente vazia. Todos aguardavam o trem, muitos sentados, serenos e com a tranqüilidade que o domingo permite. Felipe estava novamente aguardando, ansioso, porém, quieto. Apenas mexia umas pedrinhas em sua mão, rodando-as em loop, para cima e para baixo. O trem surgiu no horizonte e veio aproximando-se. A velocidade do trem; é isso que o faz ser ainda escolhido, e óbvio, o fato de não pegar engarrafamento.
- O trem que não passou... - balbuciou Felipe, com um olhar perdido, e ao mesmo tempo, decidido.
O trem aproximava-se da estação. Aqueles que iam embarcar no veículo levantavam dos bancos, espreguiçavam-se, tomavam lentamente suas posições - atrás da linha amarela. Felipe posicionou-se, ajeitando-se para que as pedras não o incomodassem nesse momento. Olhou para o lado direito e viu o trem crescendo gradualmente; virou a cabeça para a frente e viu o céu, e em seu campo de visão, a borda da plataforma. Sorriu.
- Eu sou o trem que não passou...
Felipe falou isso, sem berrar, mas audível o suficiente para chamar a atenção de um senhor sonolento que aguardava o trem, que desesperou-se e passou a abanar os braços descoordenadamente para o trem, que chegava, imponente, e a gritar:
- Homem na linha!!! Pára!!! Homem na linha!!
O trem obviamente ia parar, afinal, para isso servem as estações, e esse foi um erro de cálculo de Felipe, que em seu desespero, só pensou na capacidade de destruição do trem a partir de sua velocidade total, e não de sua velocidade quando chega na estação: deitado na linha férrea, achou que o trem passaria a toda, cortando-lhe a cabeça e o corpo com a facilidade com que um sushiman destroça um salmão; no entanto, uma roda do trem, que vinha freando para parar na estação, agarrou-se ao osso de sua saboneteira, enquanto a outra, paralela, cravava em sua bacia e arrastou-o por uns 50 metros, enquanto Felipe sentia a pele do pescoço repuxar e arder, fazendo-o conhecer sete níveis do inferno antes de morrer. A primeira parte a ser separada do corpo foram as pernas, já que a
bacia foi facilmente destrinchada, espalhando sangue, tripa e bosta pela linha do trem. E o pouco que o cérebro conseguia fazer era trincar os dentes e desejar a morte, embora o instinto natural, mesmo em casos de suicídio, busque manter nossa vida: o ombro direito de Felipe estava sendo fatiado pela roda, pois levantava, tentando dar um apoio além da saboneteira para parar a dor de puxar a pele do pescoço. Mas enfim, antes do trem parar, uma parte da pele e do couro cabeludo foram arrancadas, deixando os músculos da face à mostra por pouco tempo, pois logo após a roda conseguiu desviar do osso que a impedia, e separou a cabeça do torso de Felipe. A cabeça bateu nas pedras, ricocheteou na parte de baixo do trem, nas rodas, nas pedras de novo e foi assim até o trem parar. Irreconhecível, nosso protagonista estava arrasado, em pedaços. Literalmente.
E foi assim que o trem passou sobre "o trem que não passou".

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

20 de junho de 2013

Rio de Janeiro, avenida Presidente Vargas. Uma passeata reúne quase um milhão de pessoas, que protestam contra o governo. No país, em diversas cidades, cidadãos inconformados com os políticos do Brasil vão às ruas para reclamar da situação política, pedir o fim da violência policial nos protestos, mostrar a insatisfação com a corrupção, o descontentamento com as promessas não cumpridas de um governo que se dizia de esquerda e que preocupa-se apenas em abrir as pernas para a FIFA, gastando bilhões com a Copa do Mundo e cortando verba da saúde e da educação. No Rio, a manifestação irá até a prefeitura, órgão responsável por muitos roubos, e que certamente lucrará tanto com obras no Maracanã, da copa de 2014, quanto com as Olimpíadas de 2016; e que esmaga cada vez mais os cariocas.
J. está no meio dessa multidão. Ele é relativamente jovem, e tem um propósito muito forte além de todos os citados acima. A questão dele é pessoal. Ele está decepcionado com a presidenta - como pode uma ex-guerrilheira não manifestar-se sobre os excessos policiais cometidos nas manifestações passadas? - e com todo o corpo político brasileiro. Ele quer mudanças estruturais, deseja que nem a Copa  nem as Olimpíadas sejam realizadas no Brasil, quer mais transparência para evitar roubos astronômicos na esfera pública. Mas não hoje.
Hoje, J. só deseja realizar uma vingança pessoal, e planejou por muito tempo para isso. Observou as câmeras presentes na avenida Presidente Vargas; o posicionamento de patrulhas policiais; separou uma máscara para cobrir o rosto. J. via a necessidade dos black blocks, mas sabia que não pertencia àquele grupo. No entanto, para cumprir sua missão, acabaria tendo que passar por um deles. E teria que sujar suas mãos, mas estava preparado para isso. A revolução não vem com flores e nem de terno e gravata; ela vem com violência e manchada.
J. aguardava pacientemente em uma rua paralela à avenida principal, onde desde as 18 horas já passava muita gente. Ele fumava um cigarro e bebericava um vinho vagabundo que já estava até quente, enquanto uma touca estava em sua cabeça. Quando deu 19 horas, resolveu que era hora de agir: jogou a guimba de cigarro no chão e pisou; respirou fundo e abaixou a touca, que revelava-se ser do tipo que chamam "ninja", com buracos nos olhos e na boca, e saiu. Voltou, pegou a guimba do chão e jogou na lixeira que encontrava-se perto dele, já que queria uma cidade mais limpa, e sujá-la era incoerente. Partiu para a avenida, com o rosto coberto.
O caminho para chegar à presidente vargas era exatamente a Marquês de Sapucaí, rua em que há o desfile das escolas de samba no carnaval carioca. Refletiu brevemente sobre isso enquanto caminhava: estava "fantasiado", na Marquês de Sapucaí, e as pessoas olhavam para ele enquanto ele avançava, decidido. Decidiu dar uns passinhos de samba enquanto andava, para diminuir a tensão de quem o olhava, e dele próprio: estava muito tenso, pois sabia que era arriscado o que faria. Alguns sorrisos brotaram ao ver o falso black block sambando; dava mais humanidade, identificavam-se mais ao personagem sem rosto. Parou de sambar e seguiu em frente.
Quando J. virou à direita, estava próximo ao ponto que desejava; colocou a mão dentro do casaco, e de um bolso interno retirou um pequeno saco com pólvora espremida. Pegou a bomba caseira com cuidado, pois não queria que estourasse antes da hora, pois só tinha duas, e precisava atingir o alvo. Passou horas desenrolando malvinas e depositando toda a pólvora em um saco, para depois dividir o enorme montante em dois, cada um o suficiente para causar um estrago bonito. O inimigo instalava-se aos poucos no Rio de Janeiro, e parecia que ninguém percebia, ou pouco se importavam com isso; mas J. sabia o mal que isso faria ao longo dos anos, com as pessoas acostumando-se àquilo. Não, ele tinha que acabar com aquela aberração!
Ao chegar na esquina que precisava chegar, percebeu que o local parecia um ponto de encontro, e precisou pensar rápido para esvaziar o lugar; seu polegar não parava de esfregar, por ansiedade, o saco de pólvora que estava em sua mão direita. Parou em frente à parede. Olhou para cima; a grandiosidade daquela merda era imensa! Era a hora!
J. gritou, gesticulando: "Sai todo mundo, porra!!! Vou matar esse terrorista!!!"
Os gritos repetidos três vezes por J. fizeram surgir um clarão em meio ao tumulto, e a parede que ele queria ficou vazia, limpa para sentir o seu ódio. Vendo-se sozinho no espaço, atirou a primeira bomba contra o mural multicolorido que o enchia de tristeza toda vez que passava por ali, de ônibus. A bomba estourou um bom pedaço da parede, fazendo voar pedaços de pedras coloridas por ali. J. estava com o rosto virado na hora da explosão, e sentiu o deslocamento de ar e o som (um grave maravilhoso, carregado de sentimentos para ele). Ao virar-se para o antigo mural, sentiu uma alegria invadir-lhe o peito quando percebeu que o desenho estava desfigurado; mas não estava satisfeito. O ódio não satisfaz-se com o aleijamento; ele quer a morte! J. pegou a segunda bomba e lançou na parte da direita do "quadro", que tinha permanecido intacto. Segundo estrondo. Um sorriso brotou do rosto de J., que no momento estava virado para o lado oposto, para proteger os olhos das pedras que voavam, estraçalhadas. Olhou para a parede: apenas resquícios do que fora um dia; agora sim, uma obra de arte! Ficou feliz e sentiu o coração acelerar de emoção. Algumas enzimas que eu não saberei dizer quais eram, estavam a toda, correndo pelo corpo de J., e surgiram mais algumas para a festa quando ele ouviu a sirene da polícia e viu uma viatura tentando, lentamente, chegar ao local, enquanto a multidão a atrapalhava.
J. saiu correndo de volta pela Marquês de Sapucaí. Sentia-se um destaque de escola de samba, todos olhavam para ele. Mas ele conhecia o poder da multidão: ele havia destacado-se antes, mas poderia voltar a ser apenas mais um. Gritou: "Gás! Não respira!!", enquanto corria. E óbvio, começou um tumulto de correria e as pessoas tapavam a boca e o nariz, mesmo sem ver ou sentir qualquer evidência de gás lacrimogêneo. J. tirou a touca do rosto, guardou no bolso. Continuou correndo, ele e mais outros milhares. Havia escapado, sem sombra de dúvidas.
No dia seguinte, ao acordar, pegou o jornal que seu pai havia comprado, na mesa. Abaixo da manchete, que falava da manifestação, uma foto da parede que destruíra na noite anterior anunciando uma notícia:
"Mural de Romero Britto destruído na manifestação por vândalos"
O sorriso parecia não caber no rosto de J., tamanha a felicidade. Respirou fundo e foi comer algo. A corrupção continuaria, a Copa e as Olimpíadas certamente ocorreriam... Mas sentia algo que poucos já sentiram: consciência de que tinha feito um bem à humanidade.