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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Crônica de uma morte viajada

Fim de noite. Alguns poucos amigos ainda estavam em sua casa. Gustavo estava sentado distante, não que não gostasse das pessoas, mas interagia muito pouco quando estava doido. E ele estava doido. Havia tomado um selinho de LSD, e estava totalmente absorto ouvindo a música do ambiente. Gostava de sentir como músicas triviais ganhavam camadas extras quando ele estava sob efeito do ácido, mais até do que as alucinações visuais. Algumas músicas passavam a ter a experiência de ouvi-las alterada depois de prestar atenção na sua totalidade (música pura mais o que está escondido para os viajantes desse mundo), fazendo com que ele gostasse mais delas.
E no exato momento em que tocava "Ashes to Ashes", do Faith No More, e ele viajava sobre brigas entre baleias gigantes e alcatéias de lobos-do-ártico, no ártico (porque numa viagem, dependendo do selo, isso pode acontecer até no inferno...), um estrondo surpreendeu-o, tirando-o do delírio, e a música pareceu esmaecer. A alcatéia e as baleias saíam cada uma para seu lado, dissipando a viagem de Gustavo, e ele lentamente abriu os olhos para tentar compreender o que estava acontecendo. Algo chamou-lhe a atenção no bar de canto de sua casa, e ao cerrar um pouco os olhos - algo que psicologicamente funciona como uma tentativa de dar foco à visão - , percebeu que ali estava um homem que ele não conhecia, encarando-o. O sujeito realmente era estranho - o fato da visão de Gustavo estar em um constante ir e vir em um zoom maldito ajudava a achá-lo estranho, talvez - , e no entanto, parecia ser a sua casa, tão à vontade que estava: uma camisa de botão preta com estampas quase radioativas de tão coloridas, aberta até a metade da barriga; em uma das mãos, uma taça com alguma bebida dentro; e no rosto, um sorriso cínico dos mais vagabundos.
O sujeito começou a vir na direção de Gustavo, que tentou desviar o olhar, para o chão, depois fechou os olhos, ficando cada vez mais tenso na medida que sentia o sujeito aproximar-se. "A merda do meu safe place, caralho... respeita meu safe place...", pensava, angustiado, o anfitrião chapado. Sentiu, mesmo com os olhos fechados, algo cortar-lhe os resquícios de luz que batiam nas pálpebras e teve certeza que aquele cara estava na sua frente, tão próximo que... sim, conseguia sentir o hálito de bebida forte vindo daquele desconhecido, a uma distância que, em sua juventude, seria considerada a distância anterior a um beijo de língua bem babado em alguma garota. Fechou ainda mais o olho esquerdo para que abrisse apenas um pouco do olho direito, o que o fez ficar com uma careta de criança birrenta, com a boca puxada para o lado esquerdo. Ao abrir, o que viu foi um imenso rosto desconhecido mais próximo do que ele gostaria, com um imenso sorriso debochado e olhos esbugalhados que convergiam para o seu. No susto, Gustavo abriu os dois olhos e jogou-se para trás, instintivamente. O sujeito ria e sentou-se ao seu lado, dando-lhe um tapa na coxa, com uma intimidade que não fazia sentido.
- E aí, Gustavo, vamos conversar?
Gustavo olhou para o sujeito, sem entender o que estava acontecendo, se era algum conhecido que por culpa da viagem de ácido ele estava apenas enxergando alguma camada nova que ele nunca havia notado.
- Cara... eu só quero...
- Ficar sozinho, eu sei... - interrompeu o fanfarrão. Olha, eu sei muito mais sobre você do que qualquer um, e acredite, acho que gostaria de saber o que eu posso te contar. Vem, tem muita gente aqui.
O rapaz levantou-se e caminhou em direção ao quintal, um lugar que realmente estava mais vazio do que a casa, já que não havia bebida lá fora. Gustavo sem saber muito o porquê, acabou seguindo as estampas berrantes da camisa, com sua percepção de espaço ainda alterada e causando-lhe uma certa vertigem.
Ao chegar no quintal, Gustavo encontrou o estranho encostado em uma pequena árvore que começava a crescer ali, apoiando-se com um dos pés na mesma. Aproximou-se dele, sabendo que ali na casa dele era para ter apenas seus amigos.
- Quem é você, cara? Desculpa, mas eu tô meio...
- Meio chapado? Cara, você tá viajando bonito com esse LSD aí! Você tava tocando altos instrumentos imaginários enquanto tava sentado ali, e pouco antes de olhar pra mim, você tava uivando, cara. Sim, uivando, e o pior, no ritmo da música. Hahahaha!
Meio constrangido, ele lembrou-se da briga entre baleias gigantes e lobos-do-ártico que passou em sua cabeça há pouco tempo atrás - embora ele não tivesse a certeza que era pouco ou muito tempo atrás. Sorriu sem graça, mas subitamente lembrou-se que não foi respondido.
- Tá, mas... quem é você?
O sujeito abriu um sorriso enorme, empolgado.
- Eu sou um mensageiro. Meu nome é Hermes, mas pode chamar de anjo, de demônio, de alucinação, de epifania, foda-se. O que importa é que sou o cara que vai te falar da tua morte, cara!
Gustavo olhou assustado para ele, mas com um misto de animação. Adorava falar sobre morte, e fantasias de seres sobrenaturais. Achou linda essa doideira toda que o ácido lhe causava; era a primeira vez que conversava com alguém que não existia, no entanto.
- Uau! Haha, cara, conta aí, espero que eu lembre disso amanhã.
O mensageiro sorriu contido e sentou-se, sendo acompanhado em seguida pelo anfitrião.
- Vai lembrar sim, Gustavo. Vai lembrar por conta do desespero, mas espero que isso não te atrapalhe. Veja isso como uma chance de aproveitar a vida como poucos têm. Nem todo mundo recebe essa mensagem.
O clima, que era tão amistoso e de animação, começou a ficar estranhamente pesado, com o tom de Hermes ficando cada vez mais sério. Ele continuou.
- Você vai morrer daqui a pouco mais de uma semana. Exatamente na madrugada de domingo para segunda, às 3:33.
Gustavo ficou sério, chocado com a revelação, com o modo como a mensagem estava sendo passada. Uma fala carregada de pesar e de pena, disfarçada com um sorriso, amenizou o clima.
- É metade de 666, né? Hehe isso aí fui eu que negociei pra você, porque eu sei que você se amarra nessas coisas. Eu também curto essas zoações, Gustavo.
O anfitrião estava tenso, e arrancava alguns matos do chão, deixando-o com as unhas cheias de terra, enquanto pensava no que estava sendo dito para ele.
- Você é minha pior bad trip, cara. Tô ficando assustado...
Hermes abraçou-o, chegando novamente próximo a ele, como um amigo íntimo bêbado querendo animá-lo após alguma notícia péssima.
- Cara, como eu disse: veja isso como uma chance. Você está sendo avisado, eu nunca faço isso assim, explicitamente, mas eu acho você maneiro, mesmo. E lógico, o LSD ajudou bastante para eu poder fazer essa comunicação extra-sensorial.
- Porra, você existe ou não existe? Vou ficar com um cagaço de morrer essa semana... - Gustavo olhava diretamente para os olhos do mensageiro, e o que ele via ali era um pouco de compaixão e... verdade.
Hermes agarrou sua cabeça colocando-a entre suas mãos abertas, puxou-o para muito perto, e para que olhasse frontalmente em seus olhos, sem poder fugir do que via, e falou sério com ele.
- Você não vai morrer durante essa semana, Gustavo. Você morrerá na madrugada de domingo para segunda, às 3:33. Entendeu? Madrugada de domingo para segunda, às 3:33. Preciso repetir?
- Não...
Gustavo voltou a olhar para o matinho que ele arrancava inconscientemente da terra, cabisbaixo. Hermes começou a levantar-se.
- Olha como eu fui legal contigo, deixei você morrer após aproveitar o máximo do fim de semana e sem precisar ir trabalhar na segunda!
Ao olhar para cima, Gustavo viu Hermes virando a bebida que ainda estava em sua taça, e desesperado fez a pergunta mais óbvia, após saber quando iria morrer.
- Mas de que eu vou morrer?
O mensageiro da morte, após terminar o gole, tacou a taça na cabeça do chapado, que apagou sem ter uma resposta.
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Gustavo acordou assustado em sua cama, ao lado da namorada, Patrícia. A levantada súbita acordou a garota, que sorriu.
- Nossa, veio de outro mundo, hein...
Ele olhou-a, com olhos que o faziam parecer um lêmure. Nem foi preciso pedir explicação.
- O Sr. Chapado que dormiu no quintal, falando sozinho e com uma taça quebrada.
- Mas eu nem bebo quando uso LSD, você sabe! - reagiu Gustavo.
- Não bebia, né... ontem parece que misturou e ficou doidaço!
Uma pontada de tristeza invadiu-lhe a mente, mas ele não conseguia entender o porquê. Aos poucos, no entanto, a memória trouxe algumas partes da noite anterior. Patrícia estava falando com ele, mas em sua cabeça só havia espaço para a lembrança de Hermes, o papo da morte... a data veio, fazendo-o dar um salto da cama.
- Nossa, não tá me ouvindo não, Coisa?
Adorava quando ela o chamava assim, mas realmente, estava começando um domingo que segundo sua última viagem seria o penúltimo de sua vida. Deu um beijo rápido na garota, e sabia que precisava pensar sobre isso, e fez o que era de costume quando queria pensar em algo sossegado: entrou no banheiro.
Após quase uma hora tentando decidir se era uma alucinação muito forte por ter misturado ácido com bebida, ou se foi realmente um portal de outro mundo que apareceu em sua vida para o aviso fúnebre, não chegou a conclusão nenhuma. Seu ceticismo não o permitia aceitar aquela doideira toda, misturando seu goticismo depressivo com mitologia grega. "Mas quer saber, pelo sim, pelo não, vou tentar aproveitar".
Ligou para o chefe e pediu compreensão, mas precisava tirar a próxima semana para resolver assuntos sérios de sua vida. Como sua voz era realmente triste e parecia vir de um abismo, tão apático ele soava, o chefe não pediu explicações e permitiu que tirasse o tempo necessário, mas que se cuidasse. Gustavo consentiu.
Decidiu que não explicaria o motivo de estar afoito para ninguém. Avisou a Patrícia que tiraria a próxima semana de férias, e que se fosse possível, ela pelo menos folgasse durante alguns dias para poderem passear, mas avisou-a de que teria que passar na casa de algumas pessoas importantes para ele: família, amigos, e que não poderia esperar que ela chegasse do trabalho para o tal, e que iria fazer isso durante a semana. A garota não entendeu nada, a pressa dessas visitas, e começou a argumentar que isso os atrapalharia quando quisessem tirar férias juntos. No que os tons começaram a elevar-se, Gustavo disse que não queria brigar. Como amava aquela garota e odiava brigar com ela por motivos bobos... Mas sempre que pequenas coisas saíam dos lugares, podiam virar brigas feias, estúpidas e sem motivos reais. Mas ele não tinha tempo para isso; sabia que ficaria uma eternidade ao seu lado, quanto mais uma semana. Beijou-a e disse que apenas sentia que precisava fazer isso, e não queria brigas durante aquelas férias surpresas. Começaram o domingo transando antes do almoço.
Gustavo aproveitou os dias ao máximo, alongando as noites o máximo que podia com Patrícia, e acordando cedo para passeios. Passou um longo dia com os pais, vendo fotos de quando era mais jovem, relembrando histórias da infância e juventude, e óbvio, pediu para os coroas fazerem a comida que ele mais gostava de cada um. O caldo de aipim com carne seca do pai; as batatas gratinadas e a lentilha da mãe. Continuavam com o mesmo gosto de quando era mais jovem, e a família continuava divertida.
Foi uma semana de encontros com diversos amigos que não via há tempos. Passeou com a sobrinha, uma das criaturas mais queridas por ele, mas que o trabalho, a distância e a vida corrida acabavam fazendo com que não se vissem tanto quanto gostaria. Patrícia tirou duas folgas e viajaram para lugares próximos, aproveitando cada momento da viagem. Tanto com os amigos, quanto com a família ou até mesmo com Patrícia, teve que segurar o choro diversas vezes, sempre que pensava que estava perto de morrer e aqueles eram escolhidos para compartilhar com ele os últimos momentos da vida; isso lhe dava uma tristeza e uma alegria imensas, uma mistura de extremos de cada sentimento. Mas não podia chorar, não podia falar com ninguém sobre isso. Como explicaria que um selo de LSD lhe abrira um portal e fizera com que tivesse uma epifania de sua morte através de Hermes? Iam interná-lo como louco, e ele não podia perder tempo explicando nada; precisava viver.
E assim fez, intensamente, até chegar a noite de domingo. Ele e Patrícia estavam sentados no quintal, no mesmo local onde Gustavo teve as revelações. Abraçados, olhavam para o céu, e a lua estava cheia, foda, um banho de contraste naquele azul quase roxo do céu.
- É, Coisa... amanhã você volta ao trabalho, né... Foi muito boa essa semana! Ao menos o tempo que eu passei com você né, porque ficou saindo pra um monte de lugarzinho... - Patrícia falava, debochando, mas sem brigar.
Sentiu o choro vir, mas continuou olhando firme na lua, enquanto sabia que os olhos estavam úmidos, e aquela ânsia estava subindo na garganta já. Engoliu aquele choro; agüentou até agora, não seria no final que ia fraquejar.
- É. Foi uma ótima semana!
Patrícia levantou-se e deu uns tapas em sua própria bunda, para tirar os matinhos e a sujeira de terra do short.
- Mas agora vamos deitar, que amanhã voltamos pra rotina?
Gustavo continuava sentado, olhando a lua. Olhou Patrícia e sorriu.
- Vamos ver um filminho antes de dormir...
- Ai, você sabe que eu vou dormir... tá tarde... - Patrícia reclamava, mas já estava acostumada a começar a acompanhá-lo vendo um filme e dormir pouco depois, para no dia seguinte perguntar sobre como terminou (sendo que mal via a história começar a desenrolar-se).
Ele levantou e deu um apertão em sua bunda, e os dois correram para dentro de casa.
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Saíram do banho após transarem na sala, assim que entraram do quintal. Gustavo colocava um filme no DVD. "Trinta anos esta noite". Patrícia pega a capa do DVD e faz uma cara de nojo com um riso sarcástico.
- Ai, filme velho, preto e branco... vou dormir rápido nesse...
Gustavo sorri.
- Vou escovar os dentes, na volta eu dou o play.
- Se eu ainda estiver acordada, eu vejo... - brincou Patrícia.
Ele sorriu e agarrou-a, dando um longo beijo e percorrendo seu corpo com as mãos. Soltou-a depois de um tempo e foi para o banheiro.
Olhou o relógio: 01:07. Faltavam pouco mais de duas horas para sua morte. Começou a escovar os dentes. Embora adorasse o tema, Gustavo morria de medo da morte e tudo o que se relacionava com ela: sangue, hospital, etc. Cagaço mesmo, desses de fazer passar vergonha. Estava perto de confrontar-se não com um desses subtemas, mas a própria morte, em breve. Ou poderia ser só alucinação aquilo tudo. Mas o medo era maior por não saber como iria morrer. E se sofresse muito? E se jorrasse sangue? E se batesse o desespero que o fizesse esquecer dos lindos momentos que tivera na vida, e principalmente os que estavam mais frescos, daquela semana? Os últimos momentos, quando você vê toda a sua vida passar rapidamente, não podiam virar uma luta inútil contra o destino fatal em uma tela preta em sua cabeça, só por conta do desespero. Era melhor morrer dormindo, conclusão final, ao término da escovação.
Pegou um remédio para dormir e tomou, para ajudar a passagem, mesmo que artificialmente. Estava voltando para a cama, quando pensou em acordar nos momentos finais de uma parada cardíaca, já morrendo e desesperado por puxar um ar e não conseguir forças para tal. Voltou ao banheiro. Tomou mais um remédio. Dois devem dar conta do recado.
- Vem logo, Coisa! Eu vou dormir, hein! Que tanto faz no banheiro? Tá batendo punheta, é? - gritou Patrícia, deitada na cama. Pode vir que eu agüento mais uma trepada... Filme é que eu durmo...
Gustavo riu. Partiu para a cama e deu umas lambidas em Patrícia, brincaram um pouquinho mais. 02:18. Foi lavar-se no banheiro enquanto Patrícia ficou na cama. Ele sabia que na volta ela já estaria dormindo dessa vez. Olhou-se no espelho. Estava feliz.
Tomou mais nove pílulas e partiu para a cama.
Ele deu o play no filme. Não conseguiu ver até o final.

domingo, 25 de dezembro de 2016

Prioridades

Era madrugada da véspera de natal. Podia escrever Natal, mas isso é dar uma importância muito grande a uma data conhecida por mesa farta de comida, presentes, mas nada a ver com nascimento ou natalidade - é verdade que alguns cristãos até fingem ter a data a ver com o nascimento de Jesus, mas isso nunca foi nem nunca será confirmado, e eles mesmo, a ver pela cultura, preferem comemorar muito mais a morte, que foi quando o nazareno ganhou fama e importância para a humanidade, do que o nascimento, quando era apenas mais um bebê com cara de joelho (embora nascido num estábulo, mas meninos e meninas nascidas em lugares ruins tem a ver com pobreza, não com religiões). Mas como disse, era véspera de natal, e nosso protagonista, um ateu convicto e descrente de muita coisa, mas também crente em outras que não o colocavam o rótulo de crente. Zombeteiro, sem ter o que fazer, fez um post em seu facebook, com fotos de um livro de bruxaria e demônios, dizendo estar preparando o ritual natalino. Nada de importante, gerou algumas risadas, algumas curtidas, mas não mudou em nada o natal, ninguém passou a fazer uma missa satânica no dia 25 por causa de sua piada. Mas como era o primeiro natal que chamaria pessoas para passar em sua casa, recém-casado com a namorada de oito anos, ele queria fazer uma graça com os elementos anticristãos que possuía.
Quando acordou, ainda véspera de natal, checou o facebook: muitas curtidas em seu post pseudo-satânico, ficou satisfeito, parecia até que estava fazendo algo de realmente útil contra a cultura cristã, mas na verdade não bastava de mais uma gracinha que agradava alguns amigos. Feliz da vida, passou aos preparativos para a festa de mais tarde - pois sim, era ateu, mas não dispensava uma boa mesa farta, não importa se a comemoração era por deuses ou por diabos. Desfiou uma arraia e começou a fazer hamburger do exótico peixe: misturou queijo, salsinha, ovo e sal na arraia desfiada, e usando a mão, modelou os pequenos discos. Quando estava colocando-os em um tabuleiro, para congelar antes de assar, sentiu uma pontada no peito; uma dor lancinante (pois apenas lancinante passa a intensidade de uma dor dessas que não sabemos descrever, mas temos a consciência de que se escrevermos lancinante, mesmo sem a maior parte das pessoas saber o significado da palavra, alcançaremos o objetivo de descrever o quão forte foi a dor) subiu-lhe até as narinas, fazendo levar a mão ao lado esquerdo do tórax. Cansou, apoiou-se na cadeira, esbugalhou os olhos e buscou fôlego para continuar no artesanato gourmet. Voltou e tentou apressadamente terminar os dois montinhos de mistura, enquanto continuava a sentir as pontadas, e quando terminou o último - de forma mambembe, diga-se de passagem, ficou mais parecendo uma gota de chuva deformada do que um pequeno disco -, já não enxergava quase nada, uma tela preta havia quase que por completo substituído sua visão. Impulsionado pela dor que ditava o ritmo de seu caminhar, subiu as escadas para se jogar em sua cama. Ao entrar em seu quarto, passou pela mulher, que limpava o banheiro, e cuspiu desesperado algumas palavras para informar o mal que lhe acometera.
- Tô passando mal... deitar...
Encaminhou-se para a cama. A mulher veio atrás, desesperada, pois o havia visto, suando feito um porco que está prestes a ser abatido e sente o cheiro de sangue do companheiro de cela. Ela estava muito preocupada, pois ele estava realmente molhado de suor. Ela o acompanhou e gritou, alucinada:
- Na cama nãaaaaao!!! Eu acabei de trocar os lençóis!!!
Ele, perdido e com o pensamento em três mil coisas que não o quão sujo e suado ele estava, muito menos o quão limpo e novo era o lençol, ficou parado, aturdido, sem saber o que fazer. A mulher apontou-lhe um pequeno espaço de uma cama de solteiro ao lado da cama de casal, entulhada de objetos que não tinham onde ser colocados, para a casa parecer arrumada ao menos por um dia. Ele olhou e percebeu que não cabia no espaço que lhe estava sendo destinado, mas não havia jeito, melhor morrer sossegado encolhido em um canto do que com uma megera lhe enchendo os últimos momentos onde poderia pensar em oito mil coisas, entre desenhos de infância, músicas e filmes que o marcaram e mulheres a quem já homenageou na punheta desde que tinha seus sete, oito anos (era um grande rol para passar em microframes), mas teria tais memórias interrompidas por "tá sujando tudo!", "você não me ajuda", "vai lavar essa merda", etc. Caiu na cama de solteiro.
A cada respiração, seu peito parecia comprimir-se e a dor agora passava das narinas, chegava-lhe aos olhos. A namorada que casou-se com ele já havia voltado tranqüila para o banheiro, agora que a limpeza do lençol estava garantida. E o nosso protagonista, conformado com o que lhe passava, permitiu-se ter o sossego dos flashes do fim de sua vida. Em um desses momentos que duram menos que centésimos de segundos, uma das lembranças recentes foi o post da madrugada, o tal das fotos satânicas. Interromperam-se as memórias, um link havia sido feito e tomou uma decisão: não podia morrer! Não, não se achava forte de saúde, nem havia um objetivo de vida tão forte assim para manter o pensamento positivo, mas era algo pessoal: o post satânico na véspera do natal poderia ser usado como prova de que Deus (com D maiúsculo para que todos saibam de qual boi estou falando) o havia castigado; e só de pensar que, ele blasfemava quase os 365 dias do ano, e não, uma blasfêmia no dia de sua morte não podia ser utilizada para espalhar medo e boatos sobre blasfêmias e zoeiras. Ele sabia que isso nada tinha a ver: o fato de comer muita gordura e nunca fazer exame de sangue sim. Mas não, os crentes de religiões não querem saber de evidências reais; eles querem boas histórias que podem assustar o povo e parecer verídicas; querem fazer ligações entre coincidências de certa forma até engraçadas, para espalhar o pânico de seu deus (o Deus, o boi cristão...), o vingativo e cruel que pune quem faz humor com uma religião qualquer entre sei lá quantas mil. Definitivamente não podia morrer. Não hoje, enquanto aquele post estava sendo curtido e seria usado contra ele. Esforçou-se e lançou um grito de dor para a namorada (com quem casou-se), e pediu para ir ao hospital.
Foi, e aqui acontecem coisas totalmente desinteressantes à história, e podemos encurtar com a máxima: ele sobreviveu. Os memes anti-religiosos podem continuar sem medo, pessoal. Graças ao nosso mártir, o protagonista sem nome.
Que seja louvado.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Cabeças rolando

Sempre que penso em poesia
Tenho acessos de raiva
Porque prefiro pensar em morte.

Acessos furiosos podem causar a morte
O que me faz pensar em poesia
Mesmo que sobreviva e fique com raiva.

Pois de tanto sentir raiva
Acabou chegando a morte
E o ódio virou poesia.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Banho de água fria (ou Sobre a Finitude)

Você nasce chorando, de olhos contraídos, quando abre, você é uma criança, pulando e brincando; você pisca os olhos, e então é um adolescente, cheio de amor para dar e ódio para distribuir; outra piscada e vira um adulto, matando-se pelo trabalho e/ou dedicando-se aos filhos; tira um cochilo e já está velho, talvez com netos para paparicar, ou rabugento por todas as limitações que a velhice dá... e depois desse cochilo, se conseguir acordar depois do "só mais 5 minutinhos", já está naquela fase mais debilitada, quando tudo cansa, você já tenha bisnetos, ou esteja abandonado, um peixe fora d'água perto de todas as tecnologias que lhe cercam. E chega a hora de deitar pra dormir. Incrível como a morte de uma pessoa querida provoca esse choque de pensamentos, e você lembra (sim, porque você já SABE) que tudo acaba, o tempo passa rápido, todo mundo morre. Há pouco tempo atrás, eu era criança e minha mãe era a minha mãe, uma pessoa meio velha (em relação à minha percepção da época), mas não tão velha quanto minha avó. Agora minha avó já estava velhinha, cansada, quase não andava mais... e ela já não era só minha avó, ela também era bisavó de uma nova geração da família. E nisso você se dá conta, que bisavós não duram muito, essa é a sua experiência de vida, mas avós... avós duram muito! Mas... epa... eu já estou com 26 anos, e isso é muito!!! Então você se dá conta de que meio que foi no "tempo certo". E... seguindo a lógica, minha mãe já é avó! E eu, que só ouvia música e ia pra shows, e saia com os amigos, agora está difícil de marcar uma saída, pois todos têm horários diferentes, trabalhos... E a vida vai-se consumindo e você não percebe o tempo passar. A finitude sempre aparece na minha cabeça viajante como uma pedra, nesses momentos tristes. Mas para mim, o importante é lembrar dos bons momentos em vida, a morte sendo apenas um ponto final de uma história foda. Bom, esse texto vai em homenagem a meus dois avós maternos, Armando e Dalva; ela, que morreu agora, 6/3/2013, mesmo dia que meu irmão completou 28 anos. Abaixo, os textos que escrevi para distribuir pela morte dos dois. E por eu achar que a morte deve ser apenas o ponto final, prefiro falar com um certo humor das vidas deles, pois acho que isso é o que vale. Dalva Lourenço - 27/05/1931 a 06/03/2013 "Você nasce, pisca o olho e é adolescente, outra piscada e é mãe, tira um cochilo, vira avó, e se der sorte, consegue ter mais cinco minutinhos de sono, e quando acorda, vira "bisa". Pois é, Dalva chegou a esse estágio, em seus quase 82 anos. Não pode-se dizer 100% lúcida, mas com um senso de humor estranho, que a permitia brincar inclusive com sua pequena confusão mental. Fã de Silvio Santos e Coca-Cola (seu sangue, como costumava dizer), não abandonou nenhum dos dois até o final, mas estranhamente, foi perdendo a vontade diária de beber Coca-Cola nos últimos meses. "Tudo bem, dona Dalva?", "Tudo bom, nada presta!". E com essa mistura de reclamação e bom-humor ela levava a vida. Bom, os médicos podem até dizer que faltou ar, mas eu sei bem o que faltou... foi Coca-Cola!" Armando Lourenço - 30/10/1930 a 07/07/2007 "Sempre brincalhão, o 'Vovô Miau' mexia com quem passava na rua, mesmo sem conhecer. Algumas brincadeiras, mesmo inconvenientes, acabavam virando gargalhadas, pois todos conheciam seu jeito infantil. A rua perde seu pedágio de balas e as brincadeiras; a família perde um pouco da alegria. Mas histórias suas serão para sempre lembradas, e trarão felicidade. A tristeza não tem vez com o 'Miau'!"