terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Hit Combo

Referente ao dia 5 de janeiro de 2018, um dia que ficará marcado em minha vida.

Qual o maior "Hit Combo" que você lembra?
Pensou em Street Fighter? Tekken? The King Of Fighters? Marvel vs Capcom?
"Fabiano, eu um dia apelei com aquela velhinha no flipper e dei 52 hit combo!"
Esquece.
É sobre bebês mas começa parecendo Mr Catra.
3:30 da madrugada, "hora da mamada".
E você sabe, não se nega uma "mamada" a ning... Digo, a um neném.
Beleza, a mãe dá o mamá, e pra ser justo, eu boto pra arrotar.
Já são 3:55, já arrotou, já ficou o tempinho pra fazer uma digestão... Mas na hora de botar na caminha, hmmm... Esse pesinho, esse cheirinho... Tá cagado. Vou trocar, tranqüilo.
Tirei a fralda, passei o lencinho umedecido, e é aí que começa o MAIOR HIT COMBO da história (e com tentativas de defesa inúteis):
Edgar começa a mijar, tento botar o lenço para bloquear, ele mija no trocador, começa a cagar no trocador, golfa, caga no meu dedo quando eu já tava passando a pomada, mete a mão na merda (nesse ponto acordei a mãe, minha dupla contra esse apelão), mija no trocador de novo e na própria roupa, caga na fralda nova ainda aberta, golfa de novo, caga no trocador de novo, encosta as costas na merda.
Acho que foi isso. E tudo numa serenidade incrível, enquanto eu estava em total desespero. Foi um Perfect; Flawless Victory.
É, essa foi a madrugada de hoje. Edgar veio com tudo.
E agora ele fica me olhando de rabo de olho, com um meio sorriso de vez em quando, como se me desafiasse "consegue sozinho ou vai chamar a mamãe?".
Tô já me preparando pra hoje como nunca me preparei pra flipper nenhum...

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Maturidade Paterna

A paternidade muda muita coisa na sua vida:
Muda sua opinião sobre fotos de bebês;
Muda seu tempo cotidiano, fazendo brotar algumas horas pra ficar olhando praquele joelhinho lindo;
Muda a sua incompetência nata, e agora você troca fralda, esteriliza coisas no fogão...

Mas certas coisas a paternidade não muda, como aquele sorriso preso no canto da boca cada vez que alguém fala "tá na hora da", "antes da", "depois da" ou qualquer outro termo seguido da palavra MAMADA.
Parem, por favor! Não tenho maturidade pra isso!

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Fios de Ovos

Uma mulher está no mercado com um homem (provavelmente seu companheiro), e vê um pote de fios de ovos. A gula, elevada à terceira potência por estar grávida, a faz parar em frente à geladeira expositora e dizer, olhando fixamente para o doce:
- Nooooooooossa!!! Eu A-MO fios de ovos!!!
Voltando ao normal, olha para o rapaz.
- Você não gosta, né?
Ele olhou pra ela, começou a andar e soltou:
- Pentelho de buceta, de buenas; mas fios de ovos não é comigo, não...
E saiu andando, rindo.

#TeamPavêOuPacumê?

domingo, 26 de novembro de 2017

Mistérios cotidianos

Merda, merda, merda. Onde está o pacote de morangos que deixei no congelador? Não entendo como posso perder algo em um espaço tão pequeno, mas ok. Tem muita coisa. Moela de frango, sorvete, açaí, salsinha congelada... alho poró? Tenho que usar isso logo... Se bem que congelado é eterno.
Para facilitar meu trabalho, tiro alguns itens e os coloco sobre a pia. Tenho nervoso de deixar congelador aberto, sempre me disseram que puxa muita luz, e atualmente tenho mais medo de conta alta do que de bala perdida (e olha que moro no Rio de Janeiro).
Achei o potinho. Tem seis morangos, dá pra fazer uma vitamina.
Só preciso de uma explicação: como é que antes de eu tirar o pote de morango, tudo cabia no congelador, e agora tenho esse pacote de moela de frango que não tem, de jeito nenhum, como entrar novamente?
Mistérios do cotidiano. Além da vitamina de morango, terei que fazer moela de frango.
Bom dia.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Memórias

Tô no 624. Um casal de coroas senta atrás de mim. Tô lendo O Beijo da Mulher-Aranha, mas a mulher fala alto, tá me atrapalhando. A conversa deles fica mais forte que o livro, e o fecho por um tempo. Papos de velho rolando, aquelas coisas sem grandeza, comentários simples, combinando até com o trânsito lento da Intendente Magalhães... Eis que a coroa, toda sapeca:
- Já estivemos aqui. Lembra?
O velho coça a cabeça, olha pra direita (eu não vi, já que estavam atrás de mim, mas imagino que foi assim). Franze a sobrancelha numa quase negativa.
- Olha pro outro lado... - diz a velha, calmamente.
O cara olha. Tem uns carros e três motéis, em seqüência. Eu já saquei, mas o velho não.
- Você estudou numa escola aqui?
Quase me viro e faço uns gestos tipo o Jim Carrey no O Mentiroso, mas seguro e confio. A coroa dá mais dica, e fala numa voz insinuante:
- Nós almoçamos em um restaurante aqui perto, um dia... Lembra?
- Restaurante??
Cara, alguém taca óleo na memória desse cara... Tá foda.
O coroa tava pensando ainda em restaurante quando, penso (e visualizo mentalmente), a coroa arqueia as sobrancelhas, fecha bem a boca e arregala os olhos, quase apontando com a cabeça para os motéis que passaram à sua esquerda. Aí o coroa captou.
- Aaaaaaahhhhhhhn... HEHEHE
E deve ter coçado o bigode, confiante; o mesmo bigode que, sabe-se lá há quanto tempo, guardou resquícios de odores selvagens. E sorri.
Ela agarra o braço dele e bota a cabeça em seu ombro, enquanto ele continua com seu sorrisão, com o olhar perdido naquele tempo que passou.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Subjetividade

Está faltando subjetividade no mundo.
As pessoas não estão sabendo interpretar além das palavras, das imagens, estão guiando-se apenas pelo literal.
O retrocesso vem pela perda poética. Quando deixamos de interpretar palavras e imagens e nos prendemos a elas, não a o que elas remetem, perdemos a humanidade.
Se há racismo denunciado em uma obra, as pessoas acham que é uma obra racista. Se há pedofilia retratada, que é uma obra pedófila. E o contexto? A ironia aqui não pode mais estar presente, porque, ironicamente, perdeu-se.
Mas há salvação.
Por mais clichê que seja, a salvação está nas crianças.
Peguei uma faca de pão, estava na hora do lanche. Chamei Giovanna para comer.
- Eu não tô com fome agora, titio.
Apontei a faca para ela, com uma cara ameaçadora.
- Olha aqui, vai comer sim, senão eu te corto toda!
Ela riu.
- Não tá vendo que eu tô com a faca na mão? E você sabe que eu tenho um machado aqui, hein...
Ela riu mais ainda.
- Você não faria nada comigo. Você me ama.

Puta que pariu. Quando uma criança de 7 anos é mais inteligente do que todo um grupo de seres humanos imbecis que não conseguem ir além do óbvio, é porque estamos mal... mas há salvação.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Reminiscências

- Olha, o tio Tonico! Tio Tonico!
O senhor, que caminhava no corredor, olhou para o lado e viu a fonte da tentativa de grito: uma pequena mulher, com um casaquinho de tricô, próprio apenas para os que alcançaram certa idade na vida.
- Tio Tonico, quanto tempo!
Iza estendeu a mão e beijou no rosto o velho, seus olhos brilharam.
- Como vai o pessoal, hein? Manda um beijo pra todo mundo. Eu tô tentando falar com a Carminha, o Tião, mas aqui eu tô tendo muito trabalho, é dia e noite limpando essa casa toda! Nem minha mãe eu tenho conseguido visitar. Às vezes eu subo o morro, mas da última vez tava muito escuro, não consegui encontrar ela, não...
Tonico apenas sorria, já que não havia como entrar na conversa. Iza ditava o ritmo e cortava as pausas e qualquer possibilidade de resposta.
- Olha, eu tô querendo sair daqui, porque... aqui o pessoal é legal, é tudo bom, mas... Eu tenho que dormir aqui, não tô gostando disso. E meu pai, meu pai não gosta disso não. Haha é... ele quer a filha dele dormindo em casa, onde já se viu, eu tenho que sair às vezes de noite, andar no morro tudo escuro, acabo nem achando a casa. Mas quando me pagarem esse salário, eu vou sair. Quero ficar na minha casinha, comer minha comidinha. Tem que ver o pessoal né, eles sentem falta de mim também.
Olhando para o relógio e abrindo um sorriso desenganado pelas sobrancelhas, Tonico pegou as mãos de Iza, deu um beijo em suas bochechas flácidas e conseguiu falar pela primeira vez na conversa.
- É isso mesmo! Arranja um outro trabalho e... sucesso! Pode deixar que eu vou falar com todo mundo que você mandou lembranças. Tchau, tchau!
Iza tinha o olhar lacrimejante aliado ao sorriso sincero, apesar dos falsos dentes. Acompanhou a ida de tio Tonico ao longo do corredor, até ele sair pela porta de madeira que a separava do resto do mundo.
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Iza gargalhava enquanto uma moça acariciava sua mão, o que, aliado ao sol que fazia, discontraía o ambiente naquela tarde.
- Mãe não! Eu sou sua irmã, menina!
A risada era gostosa de ouvir, e espalhafatosa, soava longe; só era interrompida com as falas desenfreadas dela.
- Sua mãe tem que ser mais velha, eu não tenho idade pra ser sua mãe, não, mas te peguei no colo. Isso eu peguei. Todo mundo gostava de mim, e aqui também gosta. Eu ficaria aqui, mas eu quero ver minha mãe, aqui eles não deixam.
- Para de bobeira, eu sou sua filha! Esqueceu de mim, Flavia, mãe?
Iza não ouvia. Falava sem parar, e a tentativa de interrupção da filha foi apenas uma pequena interferência, facilmente contornada pela senhora, que agora mudava drasticamente o semblante.
- Eu tô com saudade da minha mãe... Ela quer me ver também, né, poxa. Tá certa. Ninguém tem filho pra deixar largado no mundo, não. Ela gosta muito de mim...
E assim continuaram, em um diálogo nonsense, por boa parte da tarde. Até o final da visita.
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- Bom dia, dona Iza!
A velhinha virou-se para ver quem a chamava, e olhou para o rosto do senhor, de barba e cabelo brancos, sorrindo para ela. Não sorriu, mas abriu os olhos, surpresa. Olhou-o, mas o máximo que conseguiu foi erguer as sobrancelhas e buscar um pouco de ar.
- A senhora não está lembrada de mim?
Iza apertava um pouco os olhos, botou uma das mãos no rosto do senhor.
- Ai, eu tô meio esquecida... Mas eu lembro de você sim, só o nome é que tá sumindo da cabeça.
O homem abriu um sorriso.
- Você tinha me chamado de tio...
- Tio Juca! Hahaha tá vendo, eu me alembro, mas eu tô meio ruim. Hahaha tio Juca! Tio Juca! Como é que tá o pessoal?
O homem solta uma gargalhada.
- Agora eu sou Juca? Eu era o tio Tonico outro dia...
O semblante de Iza fechou-se e um olhar de lado cortou a fala. Logo após, a velha gargalhou.
- Que tio Tonico, o quê! É tio Juca!
E abraçou o senhor, que riu mais ainda.
- Tio Juca, manda um abraço pra todo mundo, hein! Eu vou passar um dia lá, quando eu for na minha mãe!
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- Oi, mãe! Tudo bem? Tudo bem?
Flávia chegou cumprimentando a mãe e as enfermeiras do asilo que estavam comandando a atividade no momento: fazer colares e pulseiras com nylon e penduricalhos. Iza estava concentrada tentando enfiar o fio por dentro de um buraco pequeno em uma miçanga de plástico laranja. Era difícil de enxergar, era difícil de controlar a tremedeira das mão; ainda assim, conseguiu, e com a expressão mudando da preocupação para um sorriso iminente, olhou e viu Flávia.
- Oi! Tudo bem por aqui sim, e você?
Flávia abraçou e beijou a mãe.
- Vou roubar ela aqui de vocês um pouquinho, tá?
Iza olhou para a enfermeira mais próxima, suspendendo os braços com o colar inacabado, e deixou em suas mãos; levantou-se com dificuldade, apoiada nas mãos de Flávia, e ao final do movimento, virou-se para as meninas.
- Eu vou cá prosear, mas eu volto.
Sorrisos brotavam sempre com as frases daquela velhinha, não tão sensata, não tão lúcida, mas com uma capacidade de ensinar como levar a vida digna de inveja de qualquer guru. A filha colocou Iza sentada em um banco, para pegar um banho de jacaré.
- Sabe quem eu sou?
A velhinha piscou e abriu um sorriso largo, mostrando todo o amarelo de sua velha dentadura.
- Minha filha, ué.
E abraçou Flávia, rindo. Depois do abraço, continuava rindo.
- Por que? Não quer mais ser minha filha?
A filha sorriu e começou a conversar com a mãe, um daqueles assuntos que não se sabe nem por que eles vêm, nem a diferença que isso faz no mundo, mas quando a diferença mais importante é para uma pessoa só, foda-se o mundo. E de futilidades foram falando, até que Eduardo chegou e abanou as mãos na direção das duas. Aproximou-se e botou a mão no ombro de Flávia.
- Me chamou já de tio Juca e de tio Tonico. Né, dona Iza? Tudo bem com a senhora?
E ao responder que tudo estava bem, Iza já não lembrava do início da fala, quando foi dito que ela o chamava de Juca ou Tonico.
Mas não importavam mais suas reminiscências; tudo estava bem, isso é que importava.