domingo, 19 de maio de 2019

Brevidade

A vida é muito curta para aprender a diferenciar Selena Gomez, Demi Lovato e Miley Cyrus.

domingo, 17 de março de 2019

Sobre ter filho

Ter filho é como estar em uma festa muito louca.
De outra forma, como estaria eu cagando, usando um chapéu de Papai Noel, em pleno março?
Ou dando pulos gritando "Pula, pula, pipoquinha"?
É só o amor que diferencia um filho de um selo de LSD.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Bumbum

— Oi.
— Pode entrar, senta… Tem o cartão?
Entrego o papelzinho. Silêncio constrangedor, e o cara de costas pra mim, no computador. A sala minúscula, no final do estabelecimento, traz uma tensão natural.
— Olha, eu nunca fiz isso, e tô nervoso…
— Ha Ha Ha! Lógico que fez! Em algum momento da vida, você já levou; pode até não lembrar, mas já tomou sim.
— Se eu não lembro, eu não fiz…
— Bobeira. Um homem desse tamanho.
Coço a barba. Está pequena demais para me entreter por muito tempo. Eu não devia ter raspado em janeiro. Fiquei um tempo com aquele queixinho de Noel Rosa.
— Tá. Olha, eu realmente tenho pavor disso, e me deixa triste ter que pagar por isso. É questão de necessidade, mesmo.
— Estou terminando aqui de te cadastrar. Burocracias. Mas não precisa ficar nervoso. Eu estou acostumado a fazer isso. Não vai doer…
— É o psicólogico… Eu sei que não vai doer, quer dizer, espero que não. Mas só de olhar, eu já fico com a boca seca.
— Então não olha – ele ri. Sério, relaxa… Ficar nervoso é pior.
Ele abre o pacote com um rasgo e prepara tudo. Suas costas não me deixam ver o que faz com as mãos. Uma gota de suor escorre pela testa, cai na pontinha da sobrancelha e eu torço para os pelos absorverem o líquido.
— Olha, o volume nem é tão grande. Dava pra resolver no braço. Mas normas são normas: tem que ser no glúteo.
Faz uma pausa e depois continua, sádico:
— Quando eu estava na faculdade, tomei uma que me deixou mancando o resto da semana toda. E eu tive que tomar três numa semana só. E violenta.
O suor escorre pela maçã do rosto. Passo o dedo antes que faça a curva e entre na minha boca. Na ausência de fala minha, ele sustenta o monólogo:
— Você só precisa tomar uma. E, modéstia à parte, eu sou um ótimo profissional. 
— Tá, mas… Como vai ser?
— Vira de costas e abaixa um pouco a bermuda.
— Tá, mas… Que posição? – eu sentia-me sem controle algum da situação; apenas aceitava as ordens.
— Só fica de costas, em pé. Se quiser, apoia o braço na parede.
Que ridículo. Abaixo a bermuda apenas o suficiente para a execução.
— Ah, tem bastante gordura nesse glúteo. Nem vai doer.
Filho da puta! Me chamou de bunda gorda!
Fsss. Fssss. Barulho de algo gelatinoso sendo espirrado.
— Que isso?
— Álcool. Vou passar aqui, e se tem nervoso, não olha que já vai entrar.
Fecho os lábios. O nervosismo vem junto com a necessidade de relaxar para que não haja dores. Que confusão mental. Aperto meus dedos para relaxar o glúteo. A picada vem e permanece por uns vinte segundos, durante os quais penso em coisas legais, músicas, qualquer coisa para não pensar naquilo e acabar logo.
Sinto a retirada, seguida de uma pressão e algo colando em minha pele.
— Doeu?
— Não – respondo, levantando a bermuda. Mas eu sabia que não ia doer, é só o nervosismo…
— Pronto. Deixa esse algodão aí um pouquinho, mas já pode ir. Hoje você não vai sentir nada, mas daqui a dois dias você estará melhor.
— OK.
— E tem que perder esse medo de injeção, hein. Já tá bem grandinho…

E assim eu saio, puto da vida por ter pago R$ 20, fora o remédio, para tomar injeção na bunda e ainda ser chamado de glúteo gordo. Mas é a vida de velho. A coluna fica fodida e você prefere passar por cima de seu medo de agulha do que ficar travado.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Resultados da Copa do Mundo

Poucos resultados me interessam... Mas ano passado um resultado de jogo entre países mudou minha vida.

Peru x República Tcheca.

Campo molhado, Peru deslizou e entrou com bola e tudo.
Tô indo, porque o resultado mais lindo do mundo tá chorando aqui, tá na hora do papá...

sábado, 12 de maio de 2018

O celular do ladrão

Rio de Janeiro, Saara, sexta-feira anterior ao dia das mães.
Essa porra tá cheia, acabei me atrasando pra uma reunião. Ando rápido, quase correndo, para que o atraso seja menos sentido.
Passando pela rua dos Andradas, tenho a idéia: vou cortar caminho pelo largo de São Francisco, porque a Uruguaiana tá cheia de gente caminhando e travando a rua, procurando um presente para as mamães. Beleza, boa idéia a minha.
Caminho, com pressa, e no espaço escuro da praça, uma pessoa caminha ao meu lado. Menos mal, duas pessoas caminhando juntas podem afastar possíveis assaltos. O pensamento é esse, isso é Rio de Janeiro. Mas talvez esse meu pensamento tenha sido ingênuo demais. O rapaz ao meu lado puxou papo:
- Aê, playboy!
Ignorei, já que não me considero playboy e não sou obrigado a agüentar desconhecidos me chamando de playboy.
- Perdeu, playboy. Passa o celular, porra!
Puta que pariu. Foi uma falha de comunicação da minha parte. O cara não tava procurando refúgio de assalto; ele era o meio. E eu entendi a mensagem. Parei e virei para encará-lo.
- Pô, cara, faz isso não. Tô cheio de pressa e só tenho esse celular pra falar com os outros, pô.
Ele moveu uma mão na altura da cintura, por dentro da camisa. Não dava para ver nada, e ele podia estar tanto com uma arma de verdade quanto com uma daquelas galinhas de borracha que fazem um barulho engraçado, que eu não ia saber. Sou cego a noite, numa praça mal iluminada, então...
- Meu irmão, tá maluco? Quer morrer, porra???
Levantei instintivamente as mãos, me rendendo, e botei em seguida a mão esquerda no bolso para pegar o celular. Lá estava a carteira, e nem é importante, mas contarei assim mesmo. Eu costumo levar a carteira no bolso direito da bermuda (ou calça), e o celular no bolso esquerdo, mas a minha bermuda estava com o bolso esquerdo furado, um furo tão grande que se eu boto o celular lá, ele cai.
Após essa explicação esdrúxula, tateei o bolso esquerdo, vi que lá estava a carteira, e passei para o bolso direito, onde estava o celular. Entre a mão ir de um bolso a outro, lembrei do bolso furado e soltei um "ahh...", lembrando-me do bolso trocado do aparelho.
Ao pegar o celular, entreguei e fiquei no vácuo: o cara não pegou.
- Tomá no cu, mermão! Tá pensando que é malandro, seu filha da puta!
Não entendi. Nem a reação do ladrão e nem essa mania de a gente falar "filha da puta", mesmo pra homens, quando deveria ser "filho da puta". Não expus a minha última questã.
- Que foi, cara? Toma o celular!
Ele balançou ainda mais o braço que estava com algo na cintura, ameaçando.
- Eu quero o SEU celular!
Ele deu uma intensidade tão grande no "seu", que pareceu me chamar de ladrão, como se aquele aparelho não fosse o meu.
- Esse é o meu celular, cara!
Tomei um empurrão.
- Tá de sacanagem? Quer me dar o celular "do ladrão"???
Tela azul. Eu era o assaltado. Na minha mente, ele era o ladrão. O que seria o "celular do ladrão"? Seria o dele. O meu quando eu passasse para ele, seria dele. Tentei entender a piada.
Não consegui.
- Ué, o ladrão é você. Esse celular é meu. Depois vai ser seu. Do ladrão. Não é?
Ele agarrou meu pescoço. Era um pouco mais alto do que eu. Falou baixinho.
- Playboy, aqui tá tudo escuro, ninguém tá vendo nada. Um monte de parceiro meu aqui. Se você tentar fazer graça, vai ficar por aqui mesmo. E só vão te achar amanhã de manhã. Para de graça, enfia essa porra de celular do ladrão no teu cu e me passa o celular que você realmente usa.
CARALHO! O "celular do ladrão" é o aparelho zoadaço que o pessoal carrega só para, no caso de ser assaltado, não perder o oficial, entregando o outro. Um tipo de bode expiatório, mas sem fazer béeeee. Aliás, pode até fazer béeee, você pode personalizar o toque, né?
O cara achou que meu aquele telefone era zoado demais para ser meu. Não entendi o porquê. Insisti.
- Cara, esse é o meu celular, o que eu uso! Pode ver aqui, tem bom dia que eu recebi hoje, no whatsapp!
Tentei lembrar de quem me manda mensagem de bom dia. Meu pai, certamente, no grupo da família, mas a essa hora já devia estar cheio de papos nada a ver, e não queria expor. Abri o de um amigo, que sempre manda de zoeira. Os olhos do assaltante estavam vidrados no celular. Quando abri a conversa com o amigo, memes do Fabio Assunção dizendo que hoje era sexta-feira, fizeram o maluco cuspir minha tela, já fodida.
- Hahahaha. Poorra! Hoje é dia de pó legal, né? Caralho, tu usa essa porra mermo, mané! Hahahaha puta que pariu...
Ele distanciou-se um pouco, rindo. Voltou pra perto de mim.
- Guarda essa porra, guarda essa porra... Aí, playboy, vou te falar duas paradas...
Eu já estava meio rindo, aquele riso meio nervoso, mas rindo. Falei mais para quebrar o monólogo dele, pra fingir que estava interagindo.
- Coé, cara...
Ele continuou.
- Uma, que se eu tô com uma arma aqui, você morria...
E tirou finalmente a mão que estava sempre na cintura, e mostrou uma latinha de Antarctica de 269ml, toda amassada. Essa era a arma dele.
- E a outra... é que se eu tivesse metido uns celulares hoje, eu ia te dar um. Puta que pariu, tu é muito escroto andando com essa porra...
Ele se afastou definitivamente, rindo pra caralho, e eu segui meu caminho para a reunião.
Cheguei atrasado, mas contei o ocorrido e ninguém lembrou mais do atraso.
O Rio de Janeiro me surpreende a cada dia.



domingo, 1 de abril de 2018

Páscoa, renovação religiosa

Na sexta-feira santa eu comi carne .
Fiz piada com a morte de Jesus, falei da costela de cordeiro amaciada com chicotadas...
Mas para Deus nunca é tarde para o arrependimento.
Dois dias depois, acordo. Olho para o lado e vejo meu filho, e sinto a necessidade de não crer em minha descrença.
A Páscoa hoje é motivo de ressurreição.
A fé que eu tinha quando garoto, puro aos olhos Dele, estava morta.
Hoje ela renasce.
E mais forte do que nunca...
Você pode até achar isso estranho, mas uma data pode modificar o pensamento das pessoas.
Pode mudar completamente discursos...
Aconteceu hoje.
Eu adoro o 1º de abril!
666 abraços procês ;*

 PS: Postado originalmente no dia 1º de abril de 2018, domingo de páscoa.

quinta-feira, 8 de março de 2018

A carona

O carioca é foda.
Eu tô no onibus, perto da porta dos fundos.
Um maluco entrou aqui por trás, camisa branca de botão e calça azul.
Eu, o motorista e você pensamos: ou é motorista ou cobrador.
Beleza.
O tempo passa, o tempo voa, e o maluco continua do meu lado, perto da porta de saída.
Aí, chegando no campinho, alguém falou "BRT". Por algum motivo, minha mente fez eu olhar pro cordão do crachá (certamente um crachá de motorista - pensei) pendurado no pescoço do cara.
Olhei e li: Panco. Com uma carinha sorridente desenhada ao lado e tudo.
Cordão azul, Panco e o rostinho em branco.
Olhei pra cara dele, olhei pro cordão de novo.
Realmente. Panco.
O cara desceu no campinho mesmo. O motorista abriu a porta no sinal, fora do ponto, camaradagem entre os da mesma profissão, pois deixa mais próximo do BRT, só atravessar a rua.
Mas ele não atravessou a rua.
Ali onde ele desceu, no sinal, tem um Prezunic. Ele entrou no Prezunic.
Rio de Janeiro, onde representante de marca de pão dá calote no busão se aproveitando da semelhança de seu uniforme com as roupas de motorista / cobrador.
Definitivamente, isso aqui não é para amadores.